Entidades científicas defendem o Inpe após ataques feitos por Bolsonaro

Área de extração de madeira no Pará (Foto: Daniel Beltrá/Greenpeace)

Nos últimos dias, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Ciências (ABC) defenderam publicamente o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) depois de ataques feitos ao órgão por Jair Bolsonaro. Entre outras manifestações, o presidente da República disse duvidar dos dados do Inpe que mostram aumento do desmatamento na Amazônia, afirmou que o diretor do Inpe, Ricardo Galvão, seria “chamado para se explicar” e sugeriu que o pesquisador, que é físico e engenheiro, poderia estar agindo “a serviço de alguma ONG”.
Em nota, a SBPC, principal organização do meio científico no país, classificou as críticas de Bolsonaro como “ofensivas, inaceitáveis e lesivas ao conhecimento científico”. A entidade também ressaltou que o Inpe tem uma atuação de cerca de 60 anos e “reconhecimento no país e no exterior”.
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“A ciência produzida pelo Inpe está entre as melhores do mundo em suas áreas de atuação, graças a uma equipe de cientistas e técnicos de excelente qualificação, e presta inestimáveis serviços ao país. O diretor do Inpe, Dr. Ricardo Galvão, é um cientista reconhecido internacionalmente, que há décadas contribui para a ciência, a tecnologia e a inovação do Brasil”, complementa o texto.
A nota sublinha que a entidade tem “confiança na qualidade do monitoramento da Amazônia” feito pelo instituto e que eventuais contrapontos a esse conteúdo precisariam ter base científica. “Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do Inpe gera uma imagem negativa do país e da ciência que é aqui realizada”, afirma o Conselho da SPBC, que assina o documento.
O último monitoramento do Inpe mostra que a Amazônia perdeu 762,3 km² no mês de junho, o que representa um aumento de 60% em comparação com o mesmo período de 2018. Na última sexta-feira, Bolsonaro disse a veículos de imprensa que as estatísticas do Inpe não estariam de acordo com a realidade nacional, além de “dificultar as negociações” no exterior.
A ABC, que reúne mais de 700 cientistas de diferentes áreas, disse, também em nota, que a iniciativa do presidente “ataca também toda a comunidade de pesquisadores do Brasil e a soberania nacional”.
“O Inpe foi criado em 1961 com a missão de produzir informações e tecnologias robustas nas áreas espacial e do ambiente terrestre, bem como disponibilizar produtos e serviços para o Brasil, subsidiar suas políticas públicas e dar suporte à comunidade científica brasileira. Seu corpo de pesquisadores é de altíssimo nível e por isso participa dos principais fóruns mundiais nas áreas de suas especialidades. Sua infraestrutura é invejável e representa o estado da arte nas áreas relacionadas à sua missão”, acrescenta o texto.
Em entrevista ao site Brasil de Fato, Luiz Davidovich, presidente da Associação Brasileira de Ciências e professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reiterou que o trabalho do instituto é considerado “ultramoderno” e que os dados produzidos pela instituição são disponibilizados para todo o mundo por meio de técnicas de transparência.
“Eu acredito que todos os brasileiros, do peão da fábrica ao presidente da República, deveriam se orgulhar do trabalho feito pelo Inpe, que esclarece a situação dos biomas nacionais”, disse. “Defender o Inpe é defender a ciência brasileira, é defender o Brasil.”

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