Associações explicam os entraves para um acordo de livre comércio Brasil-EUA

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Na última semana, em encontro com repórteres na Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse textualmente: “Nós vamos trabalhar em um acordo de livre comércio com o Brasil. O Brasil é um grande parceiro comercial. Eles nos cobram muitas tarifas, mas, tirando isso, nós amamos essa relação.” A manifestação foi uma das que foram celebradas como sinal de que um acordo de livre comércio entre os dois países pode estar a caminho.
“Esta é a melhor notícia na relação bilateral Brasil-Estados Unidos da última década”, disse à revista Veja Diego Bonomo, gerente-executivo de comércio exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “Desde 2008, houve vários acordos, como o de Céus Abertos, o de Previdência e o de vistos. Mas nenhum tem o porte e a abrangência de um acordo de livre-comércio.” Representantes do governo brasileiro também saudaram a manifestação.
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Ainda que aparentemente enfática, a fala é vista com ressalvas por representantes de associações ligadas ao comércio exterior. Especialistas apontam as dificuldades para que um acordo do gênero entre de fato em prática, a despeito das declarações explícitas dos governos americano e brasileiro.
À BBC Brasil, representantes da indústria brasileira afirmam ser altamente improvável que o consenso para um acordo seja alcançado ainda nesta gestão do presidente Jair Bolsonaro. Isso porque o caminho para o livre comércio entre os dois países está sujeito a variáveis como a aprovação de reformas no Brasil, a eleição presidencial nos Estados Unidos no ano que vem e o futuro político da Argentina, que terá eleições em outubro deste ano.
Em primeiro lugar, pesa o fato de, por meio do Mercosul, o Brasil ter fechado recentemente um longamente negociado acordo com a União Europeia, que é o principal destino das exportações de serviços dos Estados Unidos. Os americanos têm divergências com a comunidade europeia sobre comércio nos setores farmacêutico, químico, de alimentos e automóveis, entre outros.
“Com o acordo do Mercosul, as commodities que o Brasil vai vender para a União Europeia serão sem tarifas. Por outro lado, o que os EUA comprarem da União Europeia vai ser tarifado. Os EUA vão ter que conceder mais subsídios para tornar o produto deles competitivo”, disse à BBC Brasil José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) e ex-diretor da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Para os EUA, o Brasil é um parceiro comercial de peso relativamente pequeno, respondendo por pouco menos de 1% de suas exportações e importações totais.
O diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), concorda que foi o acordo com a União Europeia que motivou a súbita aproximação dos EUA. Barbosa participou, inclusive, de uma das reuniões no Brasil do secretário de Comércio dos Estados Unidos, Wilbur Ross , quando o secretário esteve na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) na última segunda-feira (29/7).
“Há uma mudança de tom, sim (dos Estados Unidos em relação ao Brasil), por causa do acordo com a União Europeia. Eles (EUA) estão perdendo mercado aqui”, disse Barbosa à BBC Brasil. “O secretário manifestou preocupação (com o acordo Mercosul-UE), em uma das reuniões que eu estava presente.”
Ele destaca, no entanto, que Ross não falou na intenção de chegar a um acordo de livre comércio, como fez Donald Trump, mas sim de uma aproximação comercial mais intensa entre os dois países. “Ele falou que a gente tem que avançar muito, que há muitas restrições aqui, que tem que fazer acordo de investimento com os americanos, que tem que ver como fica esse acordo da União Europeia com o Brasil.”
Para Barbosa, as promessas entre Trump e Bolsonaro são, até agora, movimentos muito mais políticos que comerciais. “Eu acho que isso é uma coisa de leva-e-traz. Você tem uma eleição nos EUA no ano que vem, eles não vão negociar nada antes disso. Essa súbita mudança americana é resultado do acordo com a União Europeia”, reafirma Barbosa.
“A vinda dos EUA aqui agora, o Trump elogiando enfaticamente o Bolsonaro, isso não é típico dos Estados Unidos, ainda mais do Trump, que é ele, depois ele, depois ele. Então está muito mais um cenário político do que um cenário comercial”, diz o ex-embaixador.
Além disso, pelas regras do Mercosul, do qual fazem parte Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, acordos comerciais com outros países precisam ser negociados de forma conjunta pelo bloco. “Atualmente, o Brasil não pode fazer acordo bilateral com os EUA, mas se ganha alguém (a eleição) lá na Argentina que não gosta desses acordos, de repente pode fazer um acordo bilateral. Depende do resultado da eleição da Argentina”, afirma Barbosa.
Se sair, é para quando?
Para ele, é muito pouco provável que alguma definição sobre um acordo com os EUA saia ainda no governo Bolsonaro. “Eu acho que não vai ser, mas se for negociado, vai ser no final do governo, entendeu? E o acordo com a União Europeia só vai entrar em vigor no fim desse governo. É uma janela de oportunidade para o Brasil para botar a casa em ordem, fazer essas reformas, voltar a crescer, e atrair investimentos. Aí sim vai facilitar a negociação de um acordo. Mas por enquanto é tudo manifestação e intenção”, diz.
Castro, da AEB, ressalta que, antes de ampliar as vendas para o exterior, é importante que o Brasil resolva as questões que o impedem de ser um exportador em escala global, a preços competitivos. Disso depende todo e qualquer acordo em que o Brasil tentar avançar nos próximos anos.
“Se não aprovar as reformas tudo o que estamos falando aqui pode jogar fora. Inclusive (os benefícios) do acordo com a União Europeia. Tudo, tudo.”

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