“Apocalipse do varejo”: o que a quebra da Forever 21 diz sobre o consumo atual

Após meses de rumores, a varejista de moda Forever 21 confirmou neste domingo (29/9) que entrará com pedido de falência. Como parte desse movimento, a empresa, com vendas anuais de US$ 3 bilhões, pretende fechar 350 de suas cerca de 800 lojas espalhadas pelo mundo e encerrar suas operações em 40 países.

Fundada em 1984 pelo imigrante sul-coreano Won Chang e sua mulher, Jin Sook Chang, a rede foi, ao longo de décadas, um exemplo bem-acabado do sonho americano. O casal construiu uma gigante do varejo depois de Wang ter trabalhado limpando escritórios e como frentista em um posto de gasolina. Ao acumular até três empregos de uma só vez, ele conseguiu juntar US$ 11 mil para comprar uma loja que estava à venda perto do apartamento de um quarto em que moravam. Dessa compra eles fizeram um império.

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Agora, a derrocada da Forever 21 tornou-se também epítome de um outro fenômeno: o da mudança dos hábitos de consumo. A rede, sinônimo da chamada “fast fashion”, moda rápida, acessível e quase descartável, já não combina com tempos em que os jovens cada vez mais torcem o nariz para um modelo de negócio tão pouco sustentável.

“Não é nenhum segredo que a moda rápida foi responsável por um nível catastrófico de poluição ambiental. O trio de uso de matérias-primas, poluição da água e emissões de gases de efeito estufa é apenas uma parte da história”, diz o especialista em varejo Sanford Stein no artigo “Como as Mudanças nas Tendências do Consumo Podem Afetar os Líderes da Moda Rápida”, publicado pela revista Forbes. “O comportamento circular de comprar, usar e jogar fora não tem impacto somente nos aterros sanitários, sendo um importante contribuinte de carbono, mas também pode não ser o pior: a moda rápida desempenhou um papel muito sombrio ao contribuir para o tráfico de trabalho forçado.”

A esse quadro se soma ainda a forte dependência que a Forever 21 tem de suas lojas físicas, fator em comum entre todas as vítimas do que os especialistas convencionaram chamar de “apocalipse do varejo”. A expressão tem sido usada para descrever como a internet mudou os hábitos de compra dos consumidores, afetando particularmente as redes de lojas físicas.

Desde 2017, inúmeras varejistas americanas com décadas de vida pediram falência. Essa lista, que inclui nomes de tradição, como Sears, Toys R Us, Mattress Firm e Payless, reitera como marcas antes prósperas estão sofrendo para acompanhar os novos hábitos dos consumidores. (Pesa ainda o fato de a maioria dessas varejistas ser controlada por fundos de private equity que, como relata a Forbes, usam aquisições alavancadas para comprar empresas. Essas aquisições sobrecarregam as varejistas com altas dívidas e juros que mais tarde precisam ser pagos, tornando-as menos rentáveis.)

A lista de empresas que fecharam as portas ou chegaram a se encaminhar para isso inclui ainda redes como Claire, Charlotte Russe e PacSun. Todas elas, a exemplo da Forever 21, já foram destino obrigatório de jovens consumidoras, mas acabaram na fila dos pedidos de falência. Embora tenha presença expressiva nas redes sociais (são mais de 16 milhões de seguidores apenas no Instagram), muitos analistas consideram que a Forever 21 falhou no momento de reagir ao avanço das vendas online.

É bom que se registre que, ao menos no caso da Forever 21, há esperança de sobrevida. A empresa manterá o controle de seus ativos ao longo do processo de reestruturação, que deve concentrar as operações nos mercados dos Estados Unidos e da América Latina.

A rede conseguiu ainda um financiamento de US$ 350 milhões para arcar com as despesas que virão com o processo de redesenho de suas atividades. “Este foi um passo importante e necessário para garantir o futuro de nossa empresa, o que nos permitirá reorganizar nossos negócios e reposicionar o Forever 21”, disse, em comunicado, Linda Chang, vice-presidente executiva da empresa.

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