De estrela a empresa com fundador deposto: a louca trajetória da WeWork

Alguns meses atrás, a WeWork era a queridinha de Wall Street. A empresa estava pronta para abrir seu capital, e todos os envolvidos, incluindo fundadores, funcionários e bancos que subscreveram a oferta pública inicial de ações, esperavam fazer uma fortuna com a operação. Para o IPO, a empresa foi avaliada em US$ 47 bilhões.

Em um cenário que não lembra em nada o entusiasmo de um passado tão recente, nesta terça-feira, algumas semanas depois do anúncio do cancelamento do IPO, o jornal The Wall Street Journal revelou que o fundo de investimentos japonês SoftBank vai assumir o controle do WeWork para tentar salvar a empresa. Como parte do acordo para esse arranjo, Adam Neumann, cofundador da companhia, receberá quase US$ 1,7 bilhão e terá de renunciar à sua cadeira no conselho de administração.

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De grande estrela do universo das startups a patinho feio do mercado de ações em menos de um ano: afinal, o que aconteceu com a WeWork?

Antes, é preciso entender o contexto para o surgimento da empresa. A WeWork nasceu após a crise financeira de 2008, quando os preços dos imóveis nos Estados Unidos despencaram, o desemprego disparou e a economia entrou em parafuso. A companhia abraçou uma ideia um tanto sem graça, a de compartilhamento de escritórios, deu novas cores a esse conceito e criou o fascínio de se trabalhar em um ambiente legal, moderno e esteticamente agradável. Isso ajudou a transformá-la em um dos unicórnios (empresas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão) mais valorizados do país.

Com a chegada de investidores, a WeWork abriu novos de seus ambientes corporativos nos Estados Unidos e em todo o mundo – ela está presente em cerca de 100 cidades, distribuídas em mais de 30 países. Os banqueiros de investimento competiram vigorosamente para divulgar a empresa antes de sua abertura de capital.

Ao longo deste ano, no entanto, muitas práticas da companhia passaram a ser questionadas – e boa parte dos questionamentos recai sobre Adam Neumann. O prospecto do IPO mostrou, por exemplo, que ele obteve mais de US$ 740 milhões da empresa por meio de uma combinação de empréstimos e de venda de ações.

Em outra iniciativa controversa, ele teve direito a cerca de US$ 6 milhões pela venda da marca registrada “We” à companhia. Na prática, Neumann teria dado um novo nome à empresa, rebatizada como We Co., e embolsado uma boa cifra por isso.

Segundo ex-executivos e funcionários, há outras questões que colocam em xeque a governança da startup. De acordo com esses relatos, Neumann e sua mulher, Rebekah Paltrow Neumann (prima da atriz Gwenyth Paltrow), teriam empregado diversos amigos e familiares na operação. Além disso, a WeWork teria, entre seus fornecedores, diversas empresas de propriedade de familiares de executivos da própria operação, incluindo a construtora responsável por boa parte de seus escritórios em Nova York.

Para assumir a empresa, o SoftBank comprará de Neumann cerca de US$ 1 bilhão em ações da controladora do WeWork, estenderá uma linha de crédito de US$ 500 milhões para ajudar a reembolsar um empréstimo do J.P. Morgan, principal banqueiro da empresa, e emitirá uma taxa de consultoria de US$ 185 milhões. Esse valor é superior aos estimados US$ 700 milhões que Neumann teria retirado da empresa.

O valor da empresa implodiu: de uma avaliação pré-IPO de US$ 47 bilhões, ela está hoje em US$ 8 bilhões. Sem os recursos esperados com a estreia na bolsa de valores, a WeWork planeja demitir milhares de seus funcionários. Há relatos de que a empresa, com pouco dinheiro e sem recursos suficientes, pode ser incapaz de pagar pacotes de indenização a seus funcionários que estão de saída.

As decisões equivocadas, as suspeitas sobre as atitudes de Adam Neumann, a falta de recursos para o necessário enxugamento de pessoal e o enorme baque no mercado com o cancelamento do IPO são ingredientes que não deixam dúvida: ainda há mais capítulos por vir nessa novela. O certo é que, por ora, não há (quase) ninguém contente com o fato de, a despeito de toda a celeuma, Neumann ainda ter saído com US$ 1,7 bilhão no bolso.

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