Uber completa uma década de vida – e também de prejuízos

Fundada em 2009, a empresa de transporte compartilhado e delivery Uber completou neste ano uma década de existência – e também uma década ininterrupta de prejuízos. Sua presença global só aumenta (a companhia já atua em mais de 60 países), e as receitas também têm crescido, mas o resultado financeiro ainda fica no vermelho. E, a julgar pelo balanço mais recente, isso ainda deve perdurar por mais algum tempo.

O último demonstrativo trimestral mostrou um aumento de quase 30% nas receitas, que somaram US$ 3,8 bilhões, e prejuízo líquido próximo de US$ 1,2 bilhão. O Uber permite que passageiros e motoristas se deem notas. Que nota a empresa receberia hoje?

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É preciso levar em conta que a atividade principal do Uber é providenciar um software que elimina intermediários. Essa tecnologia reduz muito os custos — comparando com os serviços tradicionais de táxis, por exemplo —, mas não é o suficiente.

“À medida que passa o tempo, essa tecnologia ficou à disposição de quase todos, incluindo as empresas de táxi, e isso minimiza a vantagem do Uber”, disse à BBC Adam Leshinsky, autor de Wild Ride: Inside Uber’s Quest for World Domination (“Corrida Selvagem: Por Dentro da Busca do Uber pela Dominação Mundial”, em tradução livre). “O que o Uber tem é um tamanho gigante e facilidade de uso.”

A empresa cresceu se tornando competitiva nos mercados onde opera porque subsidia as viagens. Leshinsky acredita, no entanto, que isso deve acabar. “A principal maneira que Uber e seus competidores, como o Lyft, poderiam fazer dinheiro é se sua competição brutal de preços acabasse. Hoje, elas subsidiam suas viagens em muitos mercados ao redor do mundo, e o fizeram durante muitos anos. Se seus preços subirem, terão melhores perspectivas de lucro”, acredita o autor. Por outro lado, se os preços subissem, a base de clientes tenderia a diminuir. É um dilema ainda a ser resolvido.

Ao longo de sua trajetória, a empresa já foi criticada pelo modelo de remuneração dos motoristas que atuam por meio do aplicativo e o tratamento a seus funcionários — e mesmo se são de fato funcionários da empresa ou não. Isso levou a brigas jurídicas e regulatórias em diversos países, entre eles o Brasil.

A Califórnia, um dos principais mercados do Uber e estado de origem da companhia, aprovou uma lei que exige que a empresa trate motoristas como funcionários. O Uber está lutando para conseguir uma isenção. Se a empresa perder essa batalha, será uma dificuldade adicional para fazer dinheiro.

O outro desafio da empresa, naturalmente, é a concorrência. Nos Estados Unidos, há alternativas como o Lyft, e na Europa, a Via, que se baseia em vários passageiros compartilhando um mesmo veículo.

Entre os problemas enfrentados pela companhia está o fato de que suas quatro divisões operacionais estão perdendo dinheiro. O serviço de entrega de refeições Uber Eats, por exemplo, é a segunda divisão mais importante da empresa, representando 17% do faturamento. Ela registrou um crescimento de 64% no último trimestre, mas mesmo assim suas perdas foram 67% maiores que as do mesmo período do ano passado.

Para uma empresa de tecnologia que teve tantos problemas, a promessa do diretor executivo do Uber, Dara Khosrowshahi, de que a empresa reportaria ganhos em 2021 pode gerar dúvidas. Mas outras empresas no passado investiram grandes quantidades de dinheiro com o objetivo de conseguir uma competitividade futura.

Um dos exemplos óbvios é a Amazon, que levou muito tempo para registrar lucros, embora suas perdas se devessem ao que a empresa investia em construção de infraestrutura, como armazéns. No caso do Uber, no entanto, muitos especialistas se perguntam se os subsídios e investimentos estão de fato contribuindo para criar uma crescente clientela leal e um sistema mais forte, necessários para garantir ganhos no futuro.

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