Encilhamento: como foi o fracasso da primeira política industrial da República

A proclamação da República do Brasil completou 130 anos neste 15 de novembro. A data marca o fim da monarquia e a adoção da atual forma de governo, que teve Deodoro da Fonseca (na imagem) como o primeiro presidente do país. A transição é também um marco do início de uma malsucedida política de estímulo à indústria nacional, a primeira das inúmeras iniciativas com que o setor empresarial brasileiro tem convivido desde a deposição do imperador D. Pedro II.

Deodoro da Fonseca assumiu o governo de um país que tinha no café a base de sua economia. Para tentar diversificar e modernizar o setor produtivo, o governo decidiu que o aumento da oferta de crédito seria o instrumento mais eficaz. Foi a política (e a consequente crise) que acabou sendo batizada de Encilhamento.

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Com a pretensão de deslocar da agricultura para a indústria o eixo da economia brasileira, o ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, deu início a uma reforma que consistia em autorizar os bancos a emitir papel-moeda sem lastro em ouro e prata. A livre emissão de créditos monetários pretendia estimular o desenvolvimento de novos negócios, mas o resultado foi que os bancos passaram a liberar empréstimos sem saber se os tomadores tinham condições de honrá-los.

O aumento exponencial do volume de empréstimos obrigou o governo a fazer grandes injeções de dinheiro no sistema financeiro, o que desvalorizou a moeda e fez disparar a dívida pública e a inflação. Além do mais, com critérios frouxos na concessão de crédito, o que ocorreu, na prática, foi que muitas empresas eram abertas para tomar empréstimos e fechavam as portas pouco tempo depois.

O quadro ficou ainda mais grave porque, mesmo com o encerramento das atividades de muitas dessas empresas, suas ações continuavam à venda na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. A especulação financeira em cima de papéis que não valiam nada – afinal, muitas empresas já nem estavam mais em operação – complicou ainda mais a situação econômica do país nos primeiros anos da República.

A primeira política industrial do Brasil republicano tinha um interesse público louvável: modernizar o país. No entanto, a estratégia delegou amplamente ao setor privado a sua execução, mas sem que houvesse grande controle sobre as medidas a serem tomadas. O resultado foi que, em vez de desenvolvimento, crescimento econômico, distribuição de renda e aumento da confiança nos entes financeiros, o que o país colheu foi concentração de renda, aumento da especulação financeira sobre ativos das empresas em detrimento do uso do crédito para a atividade produtiva e estagnação da economia.

Deodoro da Fonseca acabou renunciando à presidência, em grande parte por causa da pressão surgida a partir da crise econômica. Floriano Peixoto, seu vice, assumiu o posto, mas os efeitos da crise do Encilhamento só começaram a ser debelados no governo de Campos Sales, o quarto presidente da República, que comandou o país entre 1898 e 1902.

A República do Brasil já existe há 130 anos, mas nunca é tarde para revisitar a história para entender o que o país já tentou, sem sucesso, para estimular a economia nesse período. Os líderes empresariais – e o país – só têm a ganhar quando reavaliam o passado.

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