CEO decide pagar salário mínimo de R$ 300 mil a todos os funcionários. Por quê?

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Dan Price, que comanda a Gravity Payments, uma empresa americana de processamento de cartões de crédito, é um CEO cheio de surpresas. Em 2015, ele ganhou projeção internacional quando anunciou a decisão de reduzir em 90% seu salário anual, de US$ 1 milhão, para usar os recursos para um reajuste imediato de US$ 10 mil a todos os funcionários da companhia.

Esse seria o primeiro movimento para que, em poucos anos, nenhum dos 120 funcionários da companhia recebesse menos que US$ 70 mil por ano, ou o equivalente, hoje, a quase R$ 300 mil. Agora, ele deu um passo além ao anunciar que esse será o piso salarial também na ChargeItPro, empresa que ele comprou há três anos.

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O que levou esse líder empresarial de 35 anos a um movimento tão incomum – e, para alguns críticos, também arriscado? “Estou cansado de fazer parte do problema. Quero fazer parte da solução”, ele diz. “Antes, eu estava ganhando US$ 1 milhão por ano, enquanto as pessoas que trabalhavam para mim ganhavam US$ 30 mil. Isso é errado. Eu estava alimentando o problema.”

Assim como com os funcionários da Gravity Payments, sediada em Seattle, no estado de Washington, a nova medida será adotada de maneira paulatina. Quem ganha o piso salarial na ChargeItPro, localizada no vizinho Idaho, estado natal de Price, receberá aumentos anuais de R$ 10 mil até que, a partir de 2024, ninguém na companhia receba menos que US$ 70 mil por ano.

“Eu me sinto aliviado e orgulhoso”, afirma Price. “Eu penso em como minha permanência na Terra será curta, e isso me motiva (…) Parece a coisa certa a fazer. É passageiro. Não dura muito tempo. Mas isso me dá um guia para onde eu quero ir com a minha vida.”

Depois de anunciar o aumento salarial, Price diz ter ouvido relatos dos trabalhadores sobre o impacto que o dinheiro extra teria em suas vidas. Um funcionário, pai solteiro, contou a ele que poderia parar de se dividir entre vários empregos para passar mais tempo com seu filho.

“Foi muito impactante”, lembra Price. “Meus pais não fizeram faculdade, e eles tiveram que trabalhar muito para nos criar. Foi realmente significativo para mim ver que esse cara poderá passar mais tempo com o filho. Isso realmente significa muito para mim.”

Uma pergunta que muita gente se faz é: essas medidas não quebraram a empresa? Houve alguns contratempos, é verdade. Depois do anúncio feito em 2015, a Gravity Payments perdeu alguns funcionários graduados, que aparentemente se sentiram menos valorizados quando perceberam que recém-chegados estavam ganhando quase o mesmo que eles. Além disso, a grande publicidade dada ao anúncio fez a empresa ter que se desdobrar para processar o enorme volume de consultas feitas por gente que queria trabalhar lá.

Mas uma das piores consequências foi que o irmão de Price, dono de uma participação na empresa, entrou com um processo na Justiça contra ele. A alegação foi que Price não o consultara sobre as decisões.

Mas, hoje, o saldo geral mostra que a nova política salarial foi benéfica para a companhia. Segundo registra o jornal The New York Times, os negócios e os lucros cresceram sensivelmente desde 2015. No ano passado, a Gravity processou US$ 10,2 bilhões em pagamentos, mais que o dobro dos US$ 3,8 bilhões registrados em 2014, antes do anúncio. Seu quadro de funcionários passou de 120 para 200 profissionais. O fato de eles não serem sindicalizados sugere que confiam na relação que eles têm com a empresa.

Para Price, a felicidade dos outros vale mais que o próprio dinheiro. “Os momentos em que estamos experimentando pura alegria juntos não me dão apenas satisfação, mas o alívio de saber que é aqui que eu deveria estar”, afirma. “O alívio de saber que é isso que eu deveria estar fazendo.”

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