De circo a exportações: o lado menos conhecido do empresário Gugu Liberato

Em março de 1990, o Plano Collor foi anunciado com o propósito de derrotar a hiperinflação, que arruinava a economia do país. Uma de suas medidas mais controversas (e desastrosas) foi o congelamento da poupança, com o qual o governo pretendia reduzir o volume de dinheiro em circulação e, assim, conter a alta de preços. Sem poder contar com os recursos de suas economias, pessoas e empresas tiveram que criar alternativas de fazer caixa. Foi quando Gugu Liberato deu uma de suas tacadas empreendedoras: voltou a se apresentar em circos por um cachê que, livre de impostos, era de US$ 2 mil, em valores da época.

O público do circo usava dinheiro vivo, não afetado pela medida do governo – e Gugu enxergou oportunidade (e criou empregos) em um cenário de economia em frangalhos. Espetáculos em circos estão entre as facetas empresariais menos conhecidas de Antônio Augusto Moraes Liberato. O apresentador, um dos mais populares da TV brasileira, faleceu na última sexta-feira (22/11), aos 60 anos, após bater a cabeça em um acidente doméstico.

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Em inúmeras entrevistas, Liberato, formado em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, contou que, nos tempos de colégio, foi um mau aluno de matemática. Em uma entrevista ao Jornal do Brasil publicada em julho de 1990, respondeu que “fazer contas e balanços” era a coisa que mais o aborrecia. Ainda assim, via nas iniciativas empresariais o modelo ideal para gerar riqueza e empregos. “Temos que investir em produção, não em aplicação”, disse ele ao mesmo jornal, em maio daquele ano.

O Vida de Empresa fez um levantamento sobre as iniciativas empreendedoras do apresentador. Veja a seguir algumas das mais conhecidas delas – e também outras pouco lembradas pelo público.

Agenciamento de artistas
As apresentações em circos foram a gênese da Promoart, que acabou se tornando uma de umas iniciativas empresariais mais lembradas pelo público. A empresa, criada para agenciar a vida artística de Gugu, depois transformou-se em um canal de lançamento e agenciamento de artistas. O conjunto Dominó, criado aos moldes da boy band portorriquenha Menudo, foi o de maior sucesso, mas não o único. Os cantores Conrado e Marcelo Augusto e os quartetos Polegar (outra boy band) e Banana Split (formado por três ex-misses e uma ex-modelo) também fizeram parte do elenco da companhia.

Assessoria de imprensa e merchandising
O crescimento da Promoart exigiu desdobramentos da empresa. Foi assim que surgiu a Promoart Assessoria, que fazia assessoria de imprensa para artistas – promovidos ou não por Gugu. Depois veio a Gugu Produções e Merchandising (GPM), agência que cuidava do espaço publicitário do Viva a Noite. A GPM era uma sociedade com o empresário Sérgio Murad, mais conhecido como Beto Carrero.

Revistas e guia de videolocadoras
Essencialmente um profissional de TV, Gugu também criou projetos em outra mídias. No início dos anos 90, ele lançou o gibi Revista do Gugu – voltado ao público infantil -, pela Editora Abril, e a revista Sabadão Sertanejo. Este título batizaria outro programa do apresentador nas noites de sábado no SBT, criado na esteira da primeira grande onda sertaneja da música brasileira. Além disso, nos anos 80, ainda no processo de diversificação da Promoart, ele criou a Consubvideo, que publicava uma guia anual de videolocadoras.

Casa noturna
Gugu foi um dos sócios da Fabbrica 5, casa noturna aberta em agosto de 2000 em parceria com o ator e diretor Miguel Falabella e o empresário e promoter Klaus Ebone. A iniciativa durou cerca de cinco anos. Nesse período, a casa, instalada na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, acabou realizando aquele que ficou registrado como o primeiro “baile funk oficial” da cidade. O evento ocorreu em 2001 e contou com os integrantes do grupo Bonde do Tigrão e dançarinas do Rio de Janeiro.

Exportação de suco de banana
Entre o fim dos anos 80 e meados da década seguinte, Gugu atuou na exportação de alimentos e bebidas não-alcoólicas. O braço mais importante da Dominó Comércio Internacional foi a exportação de suco de banana. A empresa comprava a pasta da fruta de um fornecedor de Santa Catarina e mandava para a Grécia, onde ela era processada e engarrafada com a marca Banatropi. Portugal era o principal mercado da bebida, que depois também chegou a países como França, Alemanha e Suíça. A Dominó Comércio Internacional, que também exportou itens como tremoço e ameixa seca, foi um negócio mantido pelo apresentador com um tio e um primo portugueses – os pais de Gugu, que nasceu em São Paulo em 1959, eram portugueses.

Licenciamento de produtos
O apresentador foi um dos mais bem-sucedidos nomes da TV brasileira no mercado de licenciamento de produtos. Em 1992, ele assinou o primeiro contrato do gênero com a fabricante de brinquedos Grow. Na ocasião, a empresa estava à beira da falência. Dois anos depois – graças, em grande parte, aos produtos associados a Gugu -, a Grow não só já tinha reequilibrado suas finanças como faturava duas vezes mais do que antes do acordo com o apresentador, como contou em fevereiro de 2000 o jornal Folha de S. Paulo. Gugu assinou contratos do gênero também com outras empresas, e alguns dos produtos com sua marca seguem sendo comercializados. É o caso do cavalinho inflável Upa-Upa do Gugu.

Loja e parques
O sucesso dos produtos com a marca do apresentador fez surgir a Loja do Gugu e, mais tarde, o Parque do Gugu. Este, aberto em 1997 no shopping SP Market, na zona sul de São Paulo, chegou a ser o maior parque indoor da América Latina, mas encerrou suas atividades em 2002. Além disso, em nova parceria com Sérgio Murad, Gugu abriu ainda o parque Fantasy Acqua Club. Localizado em Juquitiba, a cerca de 80 quilômetros de São Paulo, o parque existe até hoje, mas foi repaginado e rebatizado como Viva Parque quando passou às mãos de novos donos, em 2012.

Produtora independente
Por muitos anos, Gugu alimentou a vontade de ter sua própria rede de TV. O sonho jamais se concretizou, o que não o impediu de atuar ativamente na produção de conteúdo televisivo – para além, é claro, da apresentação de seus programas. Instalada em Barueri, na Grande São Paulo, a GGP Produções foi uma de suas iniciativas empresariais mais conhecidas. Dos estúdios da produtora saíram atrações como o humorístico Escolinha do Barulho (Record), o jornalístico SBT Rural (SBT) e os programas de variedades Raízes do Campo, com Chitãozinho e Xororó (Record) e Domingo da Gente, com Netinho Paula (Record).

Locação de equipamentos
Bem antes de produzir programas para emissoras e também peças publicitárias para empresas e marcas, Gugu Liberato atuou também na locação de equipamentos para shows. A atividade foi desenvolvida com a Consult Video.

Canal de TV
Gugu chegou a constituir uma empresa para criar sua rede própria de televisão. O Sistema Liberato de Comunicação até disputou concessões durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. Mais tarde, em 2002, a empresa, rebatizada como Sistema TV Paulista, obteve licenças de retransmissão do Ministério das Comunicações. A rede de 19 retransmissoras foi vendida em 2007 à TV Aparecida, da Igreja Católica. Também em 2002, o governo anulou a concessão de uma geradora de Cuiabá, a TV Pantanal Som e Imagem, que, oficialmente, só passou a ter Gugu como sócio em 2007. Em fevereiro daquele ano, o apresentador entrou no cadastro oficial do Ministério das Comunicações como acionista da emissora. Liberato e sua irmã, Aparecida Liberato Caetano, detinham 49,99% da Pantanal, segundo registro do Propmark, veículo especializado na cobertura das indústrias de comunicação e marketing. Gugu deixou a sociedade em 2013.

Posto de combustível
Gugu teve uma fatia minoritária, de 25%, na unidade da rede Graal localizada em Barueri, na Grande São Paulo. Esta foi sua única relação com a rede – formada por postos de combustíveis e estabelecimentos de conveniência -, que atua em diversas rodovias do país. Ainda assim, por muito tempo circulou como fato a lenda urbana de que Gugu era o verdadeiro dono da empresa. Na verdade, a rede foi fundada pelos irmãos Antônio e Manuel Alves, imigrantes portugueses que se instalaram em São Paulo na década de 40.

“Agência” de coroinhas
A iniciativa deveu-se mais a um impulso da infância do que a uma “estratégia” empresarial, mas dá mostras de como seu tino para os negócios existia desde cedo. Aos 12 anos, Gugu era coroinha da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo. Na ocasião, ele recebeu o pedido para providenciar seis coroinhas para um casamento. Segundo registro de uma reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em maio de 1990, o garoto cumpriu a tarefa, mas não como um favor. Ele não só cobrou pelo serviço como pediu as roupas que seriam confeccionadas para o evento e afixou uma foto de seu arranjo no mural da igreja, com seu nome e endereço. No relato sobre a iniciativa, Gugu disse ao jornal que aquela foi sua primeira empreitada no mundo dos negócios.

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