O que leva pessoas e organizações a se associarem?

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O texto abaixo foi retirado do artigo de autoria dos professores Fernando do Amaral Nogueira e Mario Aquino Alves, da Fundação Getúlio Vargas/SP, Escola de Administração de Empresas de São Paulo. Para ter acesso ao documento na íntegra, clique aqui.
As associações contribuem no processo democrático, dão voz a interesses especiais, regulam comportamentos, desenvolvem e divulgam inovações e criam recompensas psicológicas e sociais para quem delas participa. Entender por que os membros se associam, por que continuam associados e como as associações se estruturam e são governadas mostra-se fundamental para compreender as tensões, conflitos e dilemas inerentes na sua atuação como instituição civil na sociedade.
O Brasil tem, de acordo com o último levantamento oficial das Fundações e Associações sem Fins Lucrativos (FASFIL), cerca de 338 mil organizações sem fins lucrativos, das quais 329.934 são organizações juridicamente instituídas como associações.  Quando se espera que as associações possam efetivamente contribuir para o engajamento cívico, é importante entender quais são suas características enquanto organização. A primeira e principal característica é a existência de um quadro associativo como base constitutiva da organização. Daí resultam três discussões fundamentais:  por que pessoas e organizações se associam; por que participam e continuam associados.
No tema de buscar a associação, há duas possibilidades iniciais, aparentemente excludentes. Alguns se associariam para ganhar algo com esse ato; outros, para ajudar a terceiros ou a uma causa de interesse público. É provável que na prática os membros se associem por diversas razões, realizando consciente ou inconscientemente uma análise de custo-benefício, pesando três fatores: incentivos materiais (recompensas privadas e tangíveis), solidários (de natureza social, derivam da interação pela associação) e substantivos (recompensas intangíveis e amplas, como uma lei que é aprovada por influência da associação). Outra perspectiva complementar aponta três razões principais: para cooperar com os outros membros, para conseguir influência externa e para mudar seu status social. A associação permite um alcance de ação que dificilmente poderia ser alcançado isoladamente por uma pessoa ou organização. A ação conjunta organizada também dá não só mais poder, mas muitas vezes mais legitimidade para conseguir uma influência externa. Um aspecto fundamental que perpassa todas as razões é a questão da identidade: uma associação tende a ser mais forte quando tem uma identidade clara e facilmente compreendida por parte de seu público potencial de associados.
Mas não basta conseguir membros: uma associação ativa depende do constante envolvimento de seus associados. Fatores que explicam a entrada de um membro não necessariamente explicam sua permanência – é possível que um indivíduo se associe apenas para saber se vale à pena, decidindo depois se continua ou não. Em decisão de cunho racional, os associados fariam uma recorrente análise de custo-benefício para saber se ainda faz sentido ser parte da associação: “os membros fazem escolhas entre alternativas excludentes [por exemplo, continuar ou não associado], buscando aquela que irá melhor servir seus interesses”. Alguns pesquisadores defendem que a principal explicação para o ato de se associar e de continuar associado são as redes sociais. Um associado com fortes relações sociais com outros associados terá uma tendência maior a continuar envolvido com associação, que se torna assim um espaço para reforçar e atualizar esses laços. Há também outro conceito para explicar o envolvimento de associados com a associação: o contrato psicológico, definido como uma crença individual na existência de obrigações mútuas entre membro e associação. Existem três tipos básicos de contratos psicológicos: o transacional (quando há um ganho objetivo, como um salário), o relacional (uma espécie de moeda sócio-emocional, envolvendo interesse do grupo, normas de reciprocidade, confiança mútua de longo prazo) e ideológico (pela mobilização por uma causa, por princípios além do auto interesse, por normas de troca altruísticas. Se o membro percebe uma quebra nesse contrato – por exemplo, quando a organização se burocratiza demais, ou se desvia do foco com o qual o associado tinha identificação ideológica – há uma grande chance de que irá se desassociar.

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