O que é o ‘novo capitalismo’, tema central em Davos, e como ele afeta as empresas

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Até os donos do mundo decidiram discutir ajustes no capitalismo. Mas calma: antes que, influenciado pelo maniqueísmo que tem marcado o debate público em todo e qualquer assunto, você ache que isso é coisa de “comunista” ou “globalista”, é preciso entender os conceitos. Ninguém em Davos quer acabar com o capitalismo. Mas há um debate sobre uma nova forma de organizá-lo. E isso vai afetar cada vez mais a vida das empresas.

Desde esta terça-feira (21/1), mais de 3 mil líderes globais, incluindo 53 chefes de Estado, estão em Davos, na Suíça, para a reunião anual do Fórum Econômico Mundial. Lá, as conversas têm ocorrido em torno da ideia de que o capitalismo precisa ter como norte os interesses de todas as partes envolvidas (os chamados “stakeholders”) com a atividade de uma empresa. Isso mudaria completamente o quadro visto há quase 50 anos, no qual o objetivo central de uma empresa é gerar retorno para seus acionistas.

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O “capitalismo dos stakeholders” tem sido tratado nos debates em Davos como “novo capitalismo”, mas é claro que o tema não surgiu ontem. No início dos anos 70, o próprio Klaus Schwab (foto), criador e presidente do Fórum de Davos, já falava desse modelo de organização do capitalismo. Seria uma visão alternativa à defendida pelo economista Milton Friedman, que, em um artigo publicado no jornal The New York Times em 1970, argumentou que “as empresas têm que obedecer à lei, mas, além disso, seu trabalho é ganhar dinheiro para os acionistas”.

O número de pessoas insatisfeitas com o que o capitalismo tem feito em suas vidas é crescente, e isso explica o debate. Uma pesquisa feita em 28 países e divulgada um dia antes do início do Fórum de Davos dá mostras disso: das 34 mil pessoas entrevistadas, 56% concordaram com a frase “o capitalismo como é hoje faz mais mal que bem ao mundo”. É importante frisar: não se trata de oposição ao capitalismo, e sim ao seu modelo atual. E há outros modos de organizá-lo.

Klaus Schwab fez essas distinções em um artigo publicado em dezembro na revista Time, já antecipando o tema que dominaria os debates em Davos nesta semana. Ele mencionou ainda um terceiro caminho, o do capitalismo de Estado, no qual o governo dá as direções. É o adotado pela China. Mas Schwab parece ter feito a menção apenas para fins didáticos. Ele não só se opõe a esse modelo como o vê como muito mais suscetível à corrupção.

E do que é feito o “capitalismo dos stakeholders”? É um modelo que se concentra em enriquecer a vida de todas as pessoas e organizações afetadas pela atividade de uma empresa, como clientes, funcionários, fornecedores, comunidades – e, sim, acionistas. O modelo defendido por Friedman, dominante no último meio século, é o de enriquecimento dos acionistas e maximização dos lucros das empresas.

Não se trata de discussão teórica, mas de uma mudança que, se de fato ocorrer, transformará as vidas das empresas e das pessoas como as conhecemos hoje. A visão de Friedman segue dominante, mas uma transformação está em curso. Brian Moynihan, CEO do Bank of America, disse em Davos, por exemplo, que os investidores têm pedido que o banco invista em companhias que “fazem o certo pela sociedade”. O BofA planeja investir US$ 300 bilhões em projetos de negócios sustentáveis ​​na próxima década.

Moynihan cunhou o termo “capitalismo moral” para definir o modelo que prioriza os stakeholders. Ainda não é possível saber se essa visão passará a ser a dominante, mas a mudança está em curso. E é bom que você (e sua empresa) comece a se adaptar a esse cenário.

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