Como a Volvo adotou políticas de impacto social sem afetar seus lucros

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Já faz décadas que a montadora sueca Volvo é reconhecida por suas políticas de impacto social e ambiental e diretrizes de boa governança corporativa. Boa parte dessa reputação começou a ser construída sob a liderança do CEO Pehr Gyllenhammar, que comandou a empresa entre 1971 e 1994.

Em artigo para a CNN, Gyllenhammar explica por que a Volvo decidiu abraçar políticas de impacto social e como essa transformação ocorreu sem afetar os lucros da empresa. O executivo também reforça a mensagem de que outros líderes empresariais podem seguir o mesmo caminho sem que isso represente prejuízos às suas corporações.

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A seguir, o artigo:

Desde que o Business Roundtable divulgou no último verão uma declaração sobre quais devem ser os objetivos de uma corporação, no qual o grupo recomenda a mudança para um modelo de negócios do chamado “capitalismo de stakeholders”, esse passou a ser um assunto popular nas rodas de conversa. Ele é também tema central na conferência de Davos deste ano.

O capitalismo das partes envolvidas (stakeholders) representa um afastamento significativo do modelo dominante nos negócios, que tem como principal objetivo enriquecer os acionistas e maximizar os lucros. Em vez disso, (o capitalismo de stakeholders) se dedica a enriquecer a vida de todas as pessoas afetadas pela empresa, incluindo clientes, funcionários, fornecedores, comunidades e acionistas. Vários CEOs influentes se comprometeram a mudar o objetivo de sua empresa para esse modelo de capitalismo. Mas, para provar que estão realmente comprometidos com a mudança – e não apenas colocando sua assinatura em uma declaração de objetivos nobres -, eles devem adotar um sistema em que sejam responsabilizados por suas ações. E eles devem ter acionistas juntos no processo para mantê-los sob controle.

Obviamente, o desafio está em convencer os acionistas a reequilibrar as coisas em um campo de jogo que historicamente priorizou seus próprios lucros. Uma cultura corporativa de maximizar o retorno para os acionistas está bastante arraigada nas empresas de todo o mundo hoje em dia, e indústrias inchadas deram origem a expectativas exageradas dos acionistas. Em uma época em que a América corporativa está indiscutivelmente mais inchada e egoísta do que nunca, a mudança para um paradigma como a governança das partes interessadas é imperativa. Com empresas que se concentram exclusivamente em aumentar o retorno para os investidores há décadas, os acionistas devem entender e aceitar que essa mudança pode ocorrer sem um indevido efeito negativo nos lucros.

Eu sei por experiência própria que é possível trazer mudanças socialmente conscientes para uma grande corporação sem sacrificar seus resultados. Quando eu me tornei CEO da Volvo, em 1971, nós redesenhamos completamente nossas fábricas e linhas de montagem para priorizar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores. Eu participei da primeira grande convenção ambiental global – a conferência ambiental da ONU de 1972 – e assumi o compromisso público de tornar a Volvo mais ecologicamente correta. E, como resposta aos protestos contra o regime do apartheid, fechei a fábrica da Volvo em Durban, na África do Sul, em 1976, sendo um dos primeiros CEOs a comandar um desinvestimento do gênero.

Essas foram iniciativas ousadas, mas elas nunca foram pensadas tendo o lucro ou o retorno aos acionistas como objetivo final. Minha intenção era desenvolver sistemas de trabalho para aumentar a produtividade e tornar as pessoas mais felizes com a empresa. Era meu trabalho como CEO comunicar isso de maneira eficaz, o que eu fazia conversando com as pessoas, fossem elas trabalhadores, acionistas ou consumidores. Fui claro e direto ao comunicar minha intenção de buscar programas e políticas adequadas para o futuro, para as pessoas e para a Volvo, e a ampla base de acionistas aceitou isso. E, com o tempo, ficou claro que minhas ações como CEO sempre se alinhavam às minhas intenções declaradas publicamente, o que gerou confiança e me permitiu continuar inovando as políticas, mantendo a empresa lucrativa.

Para garantir que mudanças reais ocorram, os acionistas precisam responsabilizar os líderes empresariais por violarem a confiança do público quando não alinharem a governança corporativa com suas metas e intenções declaradas publicamente. Como na governança política, é necessário ter um sistema substantivo de freios e contrapesos que impeça a consolidação do poder no círculo interno da elite. A criação desses freios e contrapesos requer afastar-se da liderança individual. Os Estados Unidos são um dos poucos países em que muitos chefes corporativos também atuam como presidente do conselho. Os cargos de CEO e presidente foram concebidos como trabalhos separados, para que um pudesse servir de contrapeso ao outro. Uma das primeiras mudanças que os acionistas devem fazer para melhorar a governança é separar os papéis de CEO e presidente do conselho de empresas em que essas posições são ocupadas por um único indivíduo.

Os acionistas também devem examinar regularmente os programas de remuneração da empresa e comprometer-se a oferecer aos trabalhadores melhores condições, treinamento e relações de trabalho. E eles devem estar dispostos a rejeitar qualquer prática comercial desnecessariamente prejudicial, seja para indivíduos ou para o meio ambiente. Tudo isso exigirá colocar iniciativas ousadas na votação dos acionistas e votar em apoio a elas.

Uma via que pode ajudar a manter as empresas responsáveis ​​é usar o modelo de investimento ESG (ambiental, social e de governança, na sigla em inglês). Os investidores que priorizam políticas ESG não colocarão seu dinheiro em uma empresa com um histórico ruim na redução de emissões de carbono, que não demonstrem diversidade nas contratações ou não combatam a perpetuação de uma enorme diferença de renda entre funcionários e CEOs, para citar apenas alguns itens. O modelo ESG opera em uma equação que os acionistas corporativos podem entender – uma que se correlaciona diretamente com a lucratividade. Uma boa classificação ESG torna a empresa mais atraente para os investidores e aumenta o preço das ações.

O movimento ESG está crescendo nos Estados Unidos e está pressionando cada vez mais as equipes de gestão a adotarem o conceito de capitalismo dos stakeholders. Em 2018, Larry Fink, CEO da BlackRock – uma das maiores gestoras de investimentos do mundo -, declarou publicamente sua crença de que o ESG será um componente importante na maneira como todos encaram os investimentos. E, na semana passada, Fink divulgou sua carta anual, na qual afirmou que a mudança climática é uma questão urgente para os investidores e que a BlackRock reduzirá os investimentos em organizações com baixo compromisso com a sustentabilidade, incluindo o carvão usado em usinas térmicas.

Sobreviver e prosperar nos negócios requer a capacidade de se adaptar a um ambiente em mudança. O repensar dos objetivos corporativos do Business Roundtable é um sinal disso. O importante não é saber quantos dos CEOs que o apoiam estão fazendo isso para fins políticos ou de relações públicas, ou quais razões levaram uma gigante de investimentos como a BlackRock a abandonar investimentos danosos ao clima. O importante é reconhecer a tendência que está em curso, que pressiona os líderes de negócios a alinhar suas ações com a ética declarada. A verdade é que essa mudança de paradigma em direção a uma cultura sustentável baseada em valor não requer altruísmo, apenas pragmatismo. Não importa como cada um desses cavalos corporativos será levado à água: importa apenas que eles bebam.

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