Além dos jornais: cinco (raras) vezes em que Warren Buffett vendeu empresas

O megainvestidor americano Warren Buffett anunciou nesta quarta-feira (29/1) uma decisão incomum em sua trajetória: a de se desfazer de empresas de seu portfólio. Por US$ 140 milhões, Buffett fechou a venda de 31 jornais para a Lee Enterprises, tradicional editora americana que tem mais de 200 publicações sob seu guarda-chuva.

As dificuldades da indústria de jornais impressos (perda de assinantes, dificuldades de adaptação às plataformas digitais e de encontrar novas fontes de receita) são conhecidas. Assim como no Brasil, nos EUA, elas são ainda mais acentuadas entre veículos locais e regionais, justamente o perfil dos títulos da BH Media Group, operação criada pela Berkshire Hathaway, a empresa de investimentos de Buffett, para administrar os ativos de mídia impressa.

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Assim, quando um investidor vende negócios desse segmento, não costuma haver dúvida sobre as motivações. A surpresa, no caso de Buffett, é que ele sempre teve um notório apreço por jornais – na adolescência, ele trabalhou como entregador – e também porque o bilionário raramente passa adiante negócios que estão operacionais.

A seguir, conheça cinco dos casos mais notórios de desinvestimentos feitos por Warren Buffett, o “Oráculo de Omaha”:

IBM
Em 2011, a Berkshire Hathaway comprou US$ 10,7 bilhões em ações da IBM. No fim de 2017, a empresa de investimentos começou a se desfazer dos papéis, um movimento que prosseguiu no ano seguinte até as posições serem zeradas. Nesse caso, não se tratava de deixar de atuar em um setor inteiro, como foi com a venda dos jornais: Buffett saiu de uma companhia de tecnologia para investir em outra, a Apple.

US Air
Já faz mais de três décadas que Warren Buffett vive uma relação de amor e ódio com a indústria da aviação, e isso tem relação direta com a US Air. Em 1989, ele comprou US$ 358 milhões em dívidas da companhia e, em meados da década seguinte, vendeu sua participação até com algum lucro – mas não sem antes a US Air quase ir à falência. A experiência o fez passar as duas décadas seguintes produzindo tiradas como chamar o setor de “armadilha para investidores” e a competição entre as aéreas de “política de preços camicase“. No entanto, o trauma parece ter ficado no passado. Em 2016, Buffett começou a comprar papéis de Delta, Southwest Airlines, American Airlines e United Continental, as quatro grandes da indústria hoje nos EUA.

Applied Underwriters
O setor de seguros é um dos que Buffett tem em alta conta. Já faz 53 anos que ele comprou, por exemplo, a seguradora National Indemnity, que segue em seu portfólio de investimentos. Isso não impediu o megainvestidor de se desfazer da Applied Underwriters, em uma transação fechada em 2019 por US$ 920 milhões. Aqui, o negócio não teve relação com problemas da empresa ou de seu setor. A Berkshire alegou que vendeu a companhia por já ter outras duas seguradoras atuando no ramo de compensações financeiras a trabalhadores.

Disney
A Disney é hoje uma das empresas mais valiosas do mundo. Sob esse ponto de vista, a decisão de vender sua participação na companhia parece ter sido um dos grandes erros de Buffett – especialmente quando se sabe também que ele fez isso não uma, mas duas vezes. Em 1966, ele comprou 5% da Disney por US$ 4 milhões, vendendo essa participação por US$ 6 milhões um ano depois. Depois, em 1995, a Disney comprou a Capital Cities / ABC, da qual a Berkshire Hathaway tinha papéis. O acordo em dinheiro e ações levou a Berkshire a possuir 21 milhões de ações da Disney. Mas, como ocorrera nos anos 60, Buffett rapidamente reduziu sua posição. No total, os dois desinvestimentos custaram US$ 20 bilhões, dinheiro que a Berkshire Hathaway deixou de receber com a valorização dos papéis e em dividendos.

Salomon Brothers
Muitos analistas citam o Salomon Brothers como um dos piores investimentos de Warren Buffett. No início dos anos 90, uma série de escândalos em transações de bônus do Tesouro americano quase levou o banco de investimentos à falência. Buffett, que havia desembolsado US$ 700 milhões em 1987 por uma participação no grupo, assumiu interinamente a presidência de seu conselho de administração. A tarefa, disse ele, foi ingrata: em uma carta a investidores, o megainvestidor disse que a função, que ele desempenhou por nove meses, entre 1991 e 1992, estava “longe de ser divertida”. Em 1997, a seguradora Travelers Group adquiriu a Salomon Brothers por US$ 9 bilhões, e o Oráculo de Omaha ficou com US$ 1,7 bilhão. O Salomon Brothers passou a integrar o Citigroup depois que Travelers e Citicorp se fundiram, em 1998, mas a marca deixou de existir em 2003 por causa da mancha em sua reputação causada pelos escândalos.

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