Como uma filha de escravos virou a primeira milionária por mérito próprio dos EUA

Leia também

A história de Annie Malone tem todos os elementos para inspirar escritores, diretores de cinema e também mulheres que, neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, buscam um modelo positivo para se espelharem na busca por direitos e oportunidades iguais aos dos homens. Nascida livre de um casal de escravos, ela é considerada a primeira americana a se tornar milionária por mérito próprio. A self-made woman não tinha família rica da qual receber herança, mas acabou por construir sua própria fortuna. A empresária morreu em 1957, mas legado segue vivo.

Annie Minerva Turnbo nasceu em 1869 em Metropolis, no estado de Illinois, sendo a décima de 11 filhos de Robert e Isabella Turnbo. Seus pais morreram quando ela era jovem, o que exigiu que uma irmã mais velha a criasse. Annie chegou a entrar no ensino médio, mas, como ficava doente com frequência, perdia muitas aulas. Ela acabou não concluindo os estudos, mas ficou na escola tempo suficiente para descobrir que era boa em química.

Por volta da virada do século 19 para o 20, Annie Turnbo desenvolveu um produto para alisamento de cabelo voltado a mulheres negras. Uma dos grandes diferenciais da invenção de Annie era que seu produto não danificava os fios e nem feria o couro cabeludo, como ocorria com os produtos que havia no mercado na época. Dessa criação inicial ela acabou desenvolvendo uma linha de beleza completa para seu público, que só crescia.

Já instalada em um centro maior, St. Louis, no vizinho estado do Missouri – que, em termos proporcionais, era na época uma das cidades com maior população negra dos Estados Unidos -, Annie seguia sem acesso a canais tradicionais de distribuição, negados a uma empreendedora mulher e negra. Assim, para comercializar seus produtos, ela e suas assistentes passaram fazer vendas de porta em porta, fazendo demonstrações às potenciais clientes.

Os negócios cresceram exponencialmente, e a empresa de Annie, já batizada de Poro, passou a ter atuação nacional. Em 1914, Annie Turnbo casou-se com Aaron E. Malone, um diretor de escola, de quem herdou o sobrenome. Quatro anos depois, quando a Primeira Guerra Mundial acabou, ela já era milionária e uma das mulheres mais bem-sucedidas de seu tempo.

Filantropia e educação para as mulheres

Mas ela não deixou o sucesso se transformar em ganância. Muito antes de a responsabilidade corporativa ser um termo do cotidiano, como é hoje, ela se convenceu de que os empresários deveriam doar grande parte de sua riqueza. Ativa filantropa, Annie ajudou uma série de organizações e instituições de caridade afro-americanas, como o orfanato St. Louis Colored Orphans Home. E, quando os salões de beleza ainda eram raridade, ela ajudou a popularizar as escolas de cosmetologia ao criar a Poro College, além de ter disseminado boas práticas de cuidados com o couro cabeludo.

Sua empresa foi afetada pelo rumoroso processo de divórcio de seu marido, ocorrido em 1927, e os impactos da Grande Depressão, iniciada em 1929. Ainda assim, a empreendedora conseguiu manter a companhia de pé ao longo de sua vida. Ela morreu em Chicago em 1957, mas sua obra segue viva, por exemplo, com o orfanato St. Louis Orphans Home, que desde 1946 se chama Annie Malone Child and Family Service Center.

A história de Annie acabou ofuscada pela de Madam C. J. Walker, uma ex-vendedora de produtos da Poro que também criou sua própria linha cosmética e fez fortuna no setor, mas o pioneirismo de Annie tem ganhado o devido reconhecimento nos últimos tempos. Em St. Louis, seus feitos e seu pioneirismo são festejados todo ano em um desfile cívico de homenagem a ela, realizado sempre no mês de maio.

- Publicidade -

Outras notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -

Mais recentes

Desemprego de jovens na pandemia pode criar “herança de décadas”

A pandemia ameaça criar uma geração perdida de jovens, afetados pelo aumento do desemprego e mais expostos a trabalhos precários. Mais de uma a...

Cresce o número de pessoas que evitam notícias sobre o coronavírus

Nos primeiros meses da pandemia, a busca por novidades sobre o assunto disparou. No fim de março, com o avanço do coronavírus, o tráfego...

Como Portugal tem combatido as fake news na pandemia

Por Marcos Freire*, de Ovar (Portugal), especial para o Vida de Empresa Parece não ser exagero dizer que as notícias sobre a pandemia - as...

Pandemia: anúncio com tom “estamos com você” já não mobiliza consumidor

Na pandemia, as pessoas passaram a consumir mais conteúdo - e isso inclui publicidade. Por um lado, isso reforça a importância de empresas e...

As vantagens dos escritórios que o home office (ainda) não tem

O trabalho remoto como norma, e não mais como exceção, tem sido amplamente considerado uma das mudanças trazidas pelo novo coronavírus que devem seguir...