Por que a crise do coronavírus não precisa ser sinônimo de demissões

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Avenida Paulista, em São Paulo, vazia na tarde deste domingo por causa da quarentena do coronavírus (Foto: Roberto Parizotti / Fotos Públicas)

A pandemia da Covid-19, infecção respiratória causada pelo novo coronavírus, é traumática se avaliada sob qualquer ângulo. Em saúde pública, são 336 mil casos confirmados e quase 15 mil mortes no mundo em menos de três meses; o convívio social tem sido afetado pelas quarentenas, milhares de cidades tentam conter a disseminação do vírus; no aspecto político, a falta de preparo dos líderes para um desafio dessa dimensão ficou evidente em muitos países, com autoridades divulgando informações desencontradas e até mesmo apresentando teorias da conspiração como se fatos fossem; e, no aspecto econômico, muitos economistas já anteveem uma severa recessão global – e seus desdobramentos, como quebra e fechamento de empresas e demissões em massa.

Será possível evitar o enxugamento das equipes em um cenário tão negativo quanto esse? Diante de tantas incertezas, parece difícil enxergar outra saída, mas, em um artigo publicado na Harvard Business Review, três renomados líderes empresariais americanos afirmam que que há, sim, caminhos alternativos para enfrentar essa crise.

“Cortar custos é certamente compreensível. Os executivos são obrigados a tomar decisões ​​para manter suas empresas de pé. Mas quem lidar com os efeitos econômicos dessa pandemia com clareza e compaixão vai criar mais valor para suas empresas e sairá dela mais forte do que nunca”, escrevem Atta Tarki (fundador da empresa de recrutamento de executivos ECA), Paul Levy (que ganhou projeção internacional como CEO do Beth Israel Deaconess Medical Center, em Boston, ao conseguir evitar demissões durante a crise financeira global de 2008-2009) e Jeff Weiss, diretor executivo CCI, uma rede americana de CEOs.

Os autores recomendam que, antes de decidirem fazer demissões em massa, os líderes empresariais considerem um conjunto de cinco abordagens. A seguir, os argumentos do trio:

1. Seja franco

Todo mundo sabe que a economia global está enfrentando um problema gigantesco e que a pandemia já afeta o desempenho de muitos setores. Não faça de conta que seus funcionários não estão com receio com o que será de seus empregos nos próximos meses: eles já estão, sim, pensando nisso.

Assim, o melhor a fazer nesse momento é ser totalmente aberto com a equipe sobre a saúde financeira da sua empresa e quais serão as maiores prioridades nos próximos meses. Nessa comunicação, não fale coisas vazias, nas quais você não acredita, na linha “nossos funcionários estão em primeiro lugar”. “Essas declarações podem ser confusas e até contraproducentes quando as pessoas estão preocupadas com seus empregos”, dizem os autores. Segundo eles, é melhor ser específico. Se seu objetivo é, por exemplo, manter os empregos enquanto cumpre seus compromissos bancários, diga isso. E se for para fazer uma série de mudanças bruscas para tentar manter os empregos, esclareça que a prioridade será essa, em detrimento de outras medidas, de efeito mais demorado.

2. Faça parte do sacrifício

Se você é um líder empresarial e está fazendo cortes para evitar demissões, esses cortes têm que afetar também o seu cotidiano, e não apenas o dos subordinados. Bônus e regalias têm que incluir os executivos mais graduados, e, no caso de reduções salariais – quando esse for o caso de sua empresa -, o maior corte tem que ser no seu próprio. Vários CEOs de companhias aéreas, por exemplo, estão renunciando temporariamente a salários em meio a cortes iminentes no setor.

3. Ouça as sugestões dos funcionários

Há executivos que têm receio de pedir sugestões aos colaboradores, achando que isso dará a impressão de que o CEO apelou a isso porque, na verdade, não tem ideia do que fazer. Mas iniciativas do gênero podem ser enriquecedoras, afirmam os autores.

Para que a abordagem seja bem-sucedida, as lideranças precisam orientar a troca de ideias informando qual caminho será o prioritário – se iniciativas de custo financeiro baixo, ou pouco arriscadas, ou com impacto positivo no fluxo de caixa, ou as que têm mais chances de salvar empregos, etc. E é preciso deixar claro que você está aberto às ideias da equipe; é possível até mesmo apresentar mais de uma solução e consultar os colaboradores para saber qual eles preferem. Seja qual for o caminho a ser seguido, uma coisa é certa: esse tipo de iniciativa fortalece, e não enfraquece, sua posição como líder.

4. Considere todas as opções (até as menos convencionais)

Antes de desligar funcionários, vale considerar todas as opções de redução de custos que não impliquem em demissões. Com um diálogo franco, é possível identificar, por exemplo, colaboradores dispostos a aceitar a oferta de uma licença não-remunerada. Em casos de redução salarial temporária, os maiores cortes têm que se concentrar entre quem ganha mais. Se o percentual for igual para toda a equipe, as mais prejudicadas serão as pessoas que ganham menos.

5. Tenha frieza – mas não seja frio

Ser um líder em tempos conturbados pode ser estressante. Se você agir rápido demais, pode ser que acabe exagerando. Se for muito lento, os negócios podem naufragar. Em meio às enormes turbulências do momento atual, é preciso ter clareza de que nem todas as notícias negativas têm o mesmo peso. O adiamento do projeto de um cliente não é o mesmo que o cancelamento.

Se o caso for de adiamento, vale tentar explicar aos clientes que você está tentando entender quais serão os impactos econômicos da pandemia em sua empresa. Nesse contato, vale perguntar se eles podem falar abertamente com você sobre a probabilidade de retomada do projeto quando as coisas se acalmarem.

Tenha em mente que manter a calma nesse momento de crise não é sinônimo de frieza em relação às necessidades de sua equipe. Este é um momento para mostrar empatia, e não de manter distância emocional de seu time. Lidere com compaixão, especialmente com os integrantes mais vulneráveis ​​da sua empresa.

“Um equívoco muito comum é achar que, em momentos problemáticos, a maioria das pessoas se preocupa, em primeiro lugar, apenas com elas próprias. Pelo contrário. Nossa experiência mostra que, durante uma crise, as pessoas preferem fazer sacrifícios se isso significa que sua empresa pode ajudar mais colegas a manter seus empregos”, escreve o trio. “É difícil enfrentar uma crise e tomar decisões para manter sua empresa em funcionamento. No entanto, se você liderar com compaixão, tocará a vida de seus funcionários de maneira extraordinária e sairá dessa desaceleração mais forte do que nunca.”

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