Como na Segunda Guerra: coronavírus transforma linha de produção de empresas

Na Segunda Guerra, a montadora de automóveis Chrysler atuou com o governo americano na fabricação de tanques de combate

Na Segunda Guerra Mundial, o presidente americano Franklin Roosevelt afirmou que “inimigos poderosos têm que ser derrotados na batalha e na produção” (ou, no original, “out-fought and out-produced”). Dada em 1940, um ano antes da entrada dos americanos no conflito, a declaração está na entrelinha da estratégia de combate ao coronavírus em várias partes do mundo: assim como na Segunda Guerra, hoje, por causa da pandemia, as linhas de produção de empresas de diferentes setores têm sido adaptadas para fabricar itens como álcool gel, máscaras cirúrgicas e respiradores hospitalares.

Em muitos casos, a adaptação das linhas fabris tem ocorrido de maneira voluntária. Foi o que fez, por exemplo, o grupo francês LVMH, que anunciou no último dia 15/3 que passaria a produzir álcool gel em suas fábricas de perfume. Líder mundial da indústria do luxo, o grupo é dono de marcas como Louis Vuitton, Dior e Guerlain.

Mas há transformações de fábricas que têm ocorrido sob apelo – ou, em alguns casos, determinação – dos governos. Depois de o Departamento de Saúde e Assistência Social britânico revelar que os estoques de respiradores hospitalares estavam em níveis criticamente baixos e de pedir aos fornecedores que produzissem “todos os respiradores que conseguissem”, as ofertas começaram a surgir. Ofereceram-se para a tarefa companhias que vão de equipes de Fórmula 1 a fabricantes de aspiradores de pó.

O paralelo entre o combate ao coronavírus e os esforços industriais da Segunda Guerra não é apenas uma referência distante: ela é também literal. “Nossa geração nunca foi testada dessa maneira”, escreveu o secretário de saúde do Reino Unido, Matt Hancock, em artigo publicado pelo jornal The Telegraph. “Nossos avós foram (testados) durante a Segunda Guerra Mundial, quando nossas cidades foram bombardeadas durante a Blitz. Mesmo com os bombardeios todas as noites, o racionamento e a perda de vidas, eles se uniram em um gigantesco esforço nacional. Hoje, nossa geração está enfrentando seu próprio teste.”

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump invocou a Defense Production Act, uma lei de 1950 que dá ao mandatário do país o poder de ordenar que o setor privado mude suas linhas fabris para fabricar equipamentos a serem usados por médicos e enfermeiros. Trump ainda não lançou mão desse instrumento, mas, nesta terça-feira (24/3), o governo informou que apelará às prerrogativas da lei para aumentar a produção de kits usados para testar pessoas com suspeita de terem contraído Covid-19, a infecção respiratória causada pelo novo coronavírus.

Adaptação à queda da demanda

Há, sim, algo de altruísmo nas iniciativas de empresas que se oferecem para produzir itens essenciais no combate à pandemia, mas as decisões das companhias também são um movimento de autopreservação. Yossi Sheffi, que dirige o programa de gestão de cadeias de suprimentos Massachusetts Institute of Technology (MIT), relata o caso de uma fabricante de roupas femininas de Hong Kong que mudou sua linha de produção para fazer máscaras cirúrgicas em meio à crise do coronavírus. “A fábrica está trabalhando 16 horas por dia, todos os dias”, disse Sheffi à agência Bloomberg. “E por que eles estão fazendo isso? É simples: ninguém está comprando roupas femininas no momento, e há uma demanda enorme por essa mudança (na linha de produtos).”

Os casos se multiplicam mundo afora: na Escócia, a cervejaria BrewDog começou a fazer álcool gel, decisão também anunciada pela Altia, estatal finlandesa que fabrica a Koskenkorva, a vodka mais popular do país, entre outras bebidas alcoólicas; na Itália, Ferrari e Fiat Chrysler estão trabalhando com o maior fabricante de respiradores do país para aumentar sua produção.

Na Segunda Guerra, algumas das transformações de linhas fabris mais notórias foram as das montadoras de automóveis americanas. A Chrysler, por exemplo, colaborou com o governo do país para produzir tanques de combate. A fábrica de tanques (foto) foi erguida em apenas 13 meses. O princípio no combate ao coronavírus é o mesmo; o inimigo é que mudou.

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