“Cultura tóxica”: executivo critica postura da Amazon na pandemia e se demite

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A saída de um alto executivo da Amazon volta a jogar luz sobre a postura – para muitos, controversa – adotada pela empresa nos Estados Unidos durante a crise do coronavírus. Tim Bray, engenheiro sênior e vice-presidente do braço de computação na nuvem Amazon Web Services (AWS), disse que se desligou porque estava “consternado” com a decisão da empresa de demitir funcionários que tentavam chamar a atenção para as condições de trabalho em centros de distribuição da empresa.

“Continuar como vice-presidente da Amazon significaria assinar embaixo de ações de que discordo”, disse Bray, em seu blog pessoal. “Então eu pedi demissão. As vítimas não eram entidades abstratas, mas pessoas reais.” No início deste mês, a Amazon demitiu Emily Cunningham e Maren Costa, duas funcionárias em Seattle, depois de elas criticarem a empresa no Twitter.

Ao citar os nomes dos demitidos – Courtney Bowden, Gerald Bryson, Maren Costa, Emily Cunningham, Bashir Mohammed e Chris Smalls -, o executivo ainda deixou uma provocação no ar. “Tenho certeza de que é coincidência que todos eles são pessoas negras, ou mulheres, ou ambos. Certo?”

Bray escreveu que, em comparação com os funcionário da AWS, que ganham mais, os trabalhadores dos centros de distribuição têm pouco poder na estrutura atual da companhia. “Os trabalhadores dos centros de distribuição estão cada vez mais enfraquecidos, com demissões em massa e (nos EUA) cobertura de saúde vinculada ao emprego. Então eles serão tratados como lixo, porque (assim é) o capitalismo. Qualquer solução plausível precisa começar aumentando a força coletiva dessas pessoas.”

Críticas severas

A Amazon tem enfrentado críticas severas por causa de uma série de reclamações sobre como tratou os trabalhadores de seus centros de distribuição, que afirmam não ter equipamento de proteção contra a covid-19 e que não são informados sobre se os colegas de trabalho receberam resultado positivo nos testes de coronavírus.

Além de Costa e Cunningham, a empresa demitiu seis funcionários de tecnologia que tiraram licença médica de um dia em abril para protestar contra o tratamento dado pela Amazon aos trabalhadores. Chris Smalls, que trabalha em um centro de distribuição de Nova York, organizou uma paralisação em março.

A empresa disse na ocasião que o Smalls foi demitido por “violar as diretrizes de distanciamento social e colocar em risco a segurança de outras pessoas”. Relatórios posteriores sugeriram que a Amazon planejava expor Smalls publicamente e desacreditar o movimento emergente dentro de sua força de trabalho. A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, chamou a demissão de “vergonhosa” e pressionou por uma investigação pelo Conselho Nacional de Relações Trabalhistas.

A Amazon contratou 175 mil pessoas nos Estados Unidos nas últimas semanas, na esteira do crescimento do comércio eletrônico puxado pela pandemia. Bray escreveu que a Amazon é “excepcionalmente bem administrada” e que demonstrou grande habilidade em identificar oportunidades e criar processos repetíveis para explorá-los como negócio. Mas, segundo ele, a companhia “tem uma correspondente falta de visão sobre os custos humanos do crescimento e acumulação incansáveis ​​de riqueza e poder.”

Para o executivo, demitir funcionários que denunciam más condições de trabalho “não é um efeito colateral de forças macroeconômicas nem uma realidade intrínseca dos mercados livres. É uma evidência de que uma veia tóxica atravessa a cultura da empresa”, escreveu. “Eu escolhi não servir nem beber esse veneno.”

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