Como o coronavírus pode tornar a indústria do turismo mais sustentável

0
57
Para que o turismo seja mais sustentável no pós-coronavírus, um dos esforços tem que ser para reduzir o excesso de visitantes em alguns destinos
Turistas diante da Torre Eiffel, em Paris: no mundo, apenas 300 cidades recebem meio bilhão de visitantes por ano (Foto: Il Vagabiondo / Unsplash)

Em um intervalo de poucos meses, o turismo passou de uma indústria que movimenta US$ 2,9 trilhões no mundo por ano para um setor virtualmente paralisado. A interrupção quase completa das atividades do segmento é uma das faces mais visíveis da crise do novo coronavírus. Como o setor vai se recuperar desse tombo sem precedentes? Essa é uma pergunta a ser respondida por todas as empresas envolvidas com essa cadeia, mas também pelo próprios turistas. Decidir a maneira como a retomada será feita passa por um debate mais profundo: se, de maneira inédita, a roda parou de girar por causa do coronavírus, não seria o caso de já fazer do turismo uma indústria de fato mais sustentável?

Enquanto o planeta ainda enfrenta a pandemia, a discussão está em curso. A Fodor’s, tradicional editora britânica de guias de viagens, com mais de 70 anos de história, tratou do tema em um artigo em que ela aponta sete aspectos da atividade turística que precisam mudar, de uma vez por todas. “Agora é a hora de acionar o botão de reinício”, diz o texto.

A seguir, as sete transformações relacionadas pela Fodor’s para fazer do turismo uma atividade mais sustentável após a crise do coronavírus.

1. Overtourism: chega de turismo em massa

Menos de dois anos atrás, um terço do turismo do mundo estava concentrado em apenas 300 cidades. Esse número limitadíssimo de destinos recebe, por ano, mais de meio bilhão de turistas, de acordo com o Conselho Mundial de Turismo e Viagens. Para quem aguarda as gôndolas para passear pelos canais de Veneza, circula pelas praias de Bali ou visita as ruínas de Machu Picchu, o excesso de turistas muitas vezes é desagradável: são filas longas, preços exorbitantes e multidões que estragam sua selfie.

Mas o problema do excesso de turistas que alguns destinos recebem, fenômeno conhecido como overturism, é muito mais profundo que apenas eventuais inconvenientes. Os impactos ambientais, sociais e econômicos, como o aumento do custo do aluguel para a população local, o excesso de lixo e o aumento do tráfico sexual, podem ter reflexos duradouros sobre as comunidades.

O que fazer? Já há medidas sendo adotadas para conter esse fenômeno – e elas poderiam ser disseminadas. Amsterdã, na Holanda, por exemplo, simplesmente decidiu não mais fazer campanhas publicitárias para se promover no exterior. A Islândia, por sua vez, passou a dar prioridade em suas campanhas de marketing a destinos menos visitados de seu território.

Essas e outras ideias têm um ponto em comum: quantidade de turistas não é necessariamente algo positivo. “Essa é a oportunidade de que muitos destinos precisavam para se redefinir”, diz Rachel Dodds, diretora da consultoria canadense Sustaining Tourism e professora de hospitalidade e gestão de turismo na Ryerson University, em Toronto. “A indústria do turismo tem reproduzido [a ideia] do capitalismo de que mais é sempre melhor. Mas nem sempre é melhor. Não queremos voltar ao que tínhamos dois meses atrás.”

2. Repensar os cruzeiros marítimos

Com problemas no descarte de resíduos, elevadas emissões de gases causadores das mudanças climáticas e perturbações à vida marinha, os navios de cruzeiro são considerados por muitos especialistas uma das frentes menos sustentáveis da indústria do turismo. Além disso, a disseminação da covid-19 em algumas embarcações durante a pandemia mostrou ainda como o segmento também precisa avançar em seus aspectos de saúde pública.

É claro que não se pode simplesmente acabar com uma atividade vital para muitas cidades e países, reitera a Fodor’s. Em 2018, mais de 27 milhões de pessoas embarcaram em um cruzeiro marítimo. Grande parte da infraestrutura turística das principais cidades portuárias é construída em torno desses navios, que movimentam US$ 126 bilhões e empregam 1 milhão de pessoas em todo o mundo.

O que fazer? De acordo com a Organização Mundial de Turismo, das Nações Unidas, uma das mudanças mais importantes para o segmento se tornar mais sustentável está na frente ambiental. O descarte e tratamento de resíduos, a proteção dos recifes de corais e a redução da poluição atmosférica e sonora têm que passar a ser prioridade, e não apenas algo a ser discutido no futuro.

Além disso, é preciso melhorar o impacto econômico dos cruzeiros sobre os destinos em que atracam. Como em muitos casos os navios param nas cidades por apenas um dia, os gastos dos turistas nesses locais acaba sendo mínimo; em outras palavras, as cidades se beneficiam pouco da chegada dos navios, mas têm que lidar com rejeitos trazidos pelas embarcações e aumentos de preços causados pela passagem dos visitantes, entre outros ônus. Contratar guias turísticos locais e visitar restaurantes, lojas e outros estabelecimentos nesses passeios é uma forma de os cruzeiros melhorarem a economia dos locais aonde levam seus passageiros.

3. Correção de rota dos destinos emergentes

Os destinos emergentes podem ser o nicho da indústria do turismo que mais podem fazer da pausa forçada pelo coronavírus um gatilho para uma transformação sustentável. Uma das principais razões para o turismo ter ficado tão fora de controle – e não apenas nos locais mais visitados – é que muitas vezes os destinos entram no mercado antes mesmo de saberem que tipo de turistas desejam, afirma a especialista. Essa (falta de) estratégia pode ter efeitos desastrosos na qualidade de vida de uma comunidade.

O que fazer? Grande parte da transformação da indústria do turismo passa pela melhoria das políticas públicas e da gestão dos destinos, diz Randy Durband, CEO do Conselho Global de Turismo Sustentável. começando pela capacidade dos governos de orientar o desenvolvimento do turismo. Os gastos têm que ser mais em planejamento e gerenciamento e menos em publicidade e promoção dos destinos.

4. Setor aéreo revisto

O aspecto em geral pouco sustentável das viagens aéreas já estava em discussão antes da pandemia, mas, como a qualidade do ar melhorou sensivelmente depois do coronavírus, o debate sobre o que o setor pode fazer para não aumentar as emissões de poluentes da indústria do turismo passou a ser inadiável. Ainda que os aviões respondam por apenas 2,5% do total das emissões de carbono na atmosfera, segundo cálculos do Carbon Brief, site britânico especializado em temas relacionados às mudanças climáticas, em 2050, o setor aéreo poderá consumir 12% do orçamento necessário para cumprimento do Acordo de Paris. A meta estabelecida pelo acordo prevê que as emissões de carbono não façam a temperatura da Terra subir mais que 1,5°C em relação aos níveis de 1990.

O que fazer? Por enquanto, muito do que podemos fazer para ajudar a redefinir o setor aéreo resume-se às ações individuais. Um passageiro da primeira classe ou da executiva, por exemplo, emite de três a quatro vezes mais carbono que um da econômica. Além disso, fazer voos diretos em vez de viagens com várias conexões, levar pouca bagagem e usar aeroportos locais também podem ajudar a reduzir as emissões de um viajante.

5. Mais trens no transporte global

Não há dúvida de que viajar de trem é muito mais ambientalmente sustentável do que de avião. Os passageiros dos trens emitem pouco mais de um terço do CO2 que os viajantes que percorrem a mesma distância por via aérea. É claro que o transporte ferroviário não é perfeito. Há uma grande diferença entre trens elétricos e a diesel, por exemplo.

O que fazer? Nesse segmento, um dos grandes problemas é que os trens são uma alternativa viável aos aviões somente em uma pequena parte do mundo. Com exceção de regiões como a Europa e o leste da Ásia, no geral, a oferta de trens no mundo é baixa e as linhas são distantes entre si. Mais trens no sistema de transporte global poderia significar uma grande mudança para a indústria do turismo, que se tornaria mais sustentável – e esse aumento exige que os governos dos países coloquem essa pauta em suas agendas nacionais após a crise do coronavírus.

6. Viagens mais curtas – e de carro

Em relação aos aviões, os automóveis convencionais não são necessariamente menos poluentes. Voar de Londres para Madri, por exemplo, na verdade gera menos emissões por passageiro do que dirigir sozinho em uma rodovia para percorrer a mesma distância.

O que fazer? Ainda assim, a opção pelos carros pode ser ambientalmente mais sustentável. Viagens mais curtas de automóvel em detrimento de opções de turismo para destinos distantes, que exigem voo, certamente reduzirão sua pegada de carbono.

7. Assumir a responsabilidade individual

Embora grande parte dos impactos negativos da indústria do turismo sobre o meio ambiente seja responsabilidade de autoridades do setor, resorts e hotéis, atrações e empresas de transporte, os viajantes também têm sua parcela de culpa pelos danos. As escolhas dos indivíduos orientam a indústria. Isso significa que mudar nosso comportamento para melhor também pode mudar o setor.

O que fazer? Para redefinirmos a maneira como viajamos, é preciso considerar a viagem responsável em três frentes: a maneira como gastamos nosso dinheiro no destino escolhido, nosso impacto no meio ambiente local (e global) e como podemos nos adaptar  aos padrões culturais e sociais da comunidade que estamos visitando. Acima de tudo, é preciso ser um bom turista.

Clique aqui e leia no Vida de Empresa histórias sobre como as companhias estão enfrentando o coronavírus.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui