Como Portugal tem combatido as fake news na pandemia

Iniciativas no país incluem a criação de um serviço de checagem diária de notícias e conteúdos de redes sociais sobre o coronavírus

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Por Marcos Freire*, de Ovar (Portugal), especial para o Vida de Empresa

Parece não ser exagero dizer que as notícias sobre a pandemia – as falsas notícias, na verdade – têm a capacidade de se espalhar e se multiplicar muito mais rapidamente do que o próprio coronavírus. E com danos igualmente devastadores. E, assim como a pandemia, as chamadas fake news não conhecem fronteiras: mentiras e boatos percorrem o mundo sem cerimônia.

Aqui em Portugal, um novo site se propõe a ser algo como a “vacina” contra a desinformação ou, ao menos, o “remédio” para amenizar os efeitos colaterais das notícias falsas ou incompletas. O projeto CovidCheck nasceu justamente para enfrentar tanto a falta de informação quanto a desinformação.

A iniciativa é uma colaboração entre o MediaLab CIES, ligado ao Instituto Universitário de Lisboa (Iscte), a Sociedade Portuguesa de Psicanálise e o Centro para a Formação de Jornalistas (Cenjor). Com atualização diária, a nova plataforma não se restringe a apresentar estatísticas: ela também ajuda a orientar os diferentes públicos, em especial os chamados grupos de risco, que mais podem ser afetados por aquela que a Organização Mundial de Saúde (OMS) já definiu como pandemia da desinformação.

O projeto analisa as publicações nas redes sociais, os discursos oficiais e também as informações jornalísticas disponíveis. Todo o material é classificado e, em muitos casos, após validados e avaliados por especialistas em comunicação e psicanalistas, ganham recomendações sobre forma e conteúdo. Assim, eles podem ser apresentados ao público sob a forma de respostas às questões frequentes sobre a covid-19. A mesma equipe responsável pela iniciativa já havia publicado dois relatórios sobre informação e desinformação sobre o coronavírus nas redes sociais e na imprensa em Portugal, o que serviu de base para avançarem com o projeto.

A disseminação de fake news também tem preocupado as principais autoridades portuguesas que estão lidando com a pandemia. Em recente coletiva de imprensa, a ministra da Saúde, Marta Temido, levantou um outro problema gerado pelas fake news. “Não podemos nos dispersar em informações que são boatos”, disse ela. Em outras palavras, a desinformação não cria apenas ruídos e brigas nos grupos de Whatsapp da família: ela também é capaz de interferir em estratégias muito maiores e consumir grande parte do tempo e do dinheiro daqueles que estão trabalhando para debelar a crise e efetivamente buscar evidências para salvar vidas e determinar protocolos para enfrentar a pandemia. Mesmo as políticas sociais públicas precisam de informações corretas para que avancem e sejam implementadas de maneira correta.

Mobilização no mundo acadêmico

Diante do caos causado pela desinformação, o mundo acadêmico também se mobiliza. Novos estudos e pesquisas buscam soluções para que se criem novos modelos de comportamento ou mesmo para embasar mudanças nas leis atuais. É o caso, por exemplo, de Joana Gonçalves de Sá, pesquisadora da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e bolsista do Conselho Europeu de Investigação. As fake news são justamente o foco de sua pesquisa. “Para a grande maioria das pessoas, não é fácil perceber o que é informação verdadeira, o que não é e em qual se pode confiar”, diz ela. Em artigo publicado na revista científica Nature Medicine, a pesquisadora aponta que, apenas em janeiro deste ano, quando o assunto ainda nem era um tópico tão em evidência, houve mais de 15 milhões de menções ao coronavírus no Twitter.

Outro pesquisador, o professor da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior e coautor de Desinformação e Saúde: Uma Perspectiva Bioética, Francisco da Silva, vai além e defende que os chamados influenciadores digitais sejam responsabilizados caso compartilhem notícias falsas. Essas pessoas “têm de ser, de alguma forma, responsáveis pelo impacto daquilo que defendem e que apresentam aos seus ouvintes ou seguidores, o que, neste momento, a legislação portuguesa ainda não prevê”, pede o acadêmico.

Naturalmente, o fenômeno das notícias falsas não é uma exclusividade de Portugal, tampouco nasceu com o coranavírus. Mas, em tempos de pandemia e crise econômica, as fake news tornam-se ainda mais perversas. Iniciativas como o novo CovidCheck são uma resposta da sociedade ao mal causado pela desinformação. Mas é pouco diante da rapidez com que se propagam e o alcance que possuem. “Alguém que compartilha mentiras torna-se, por associação, mentiroso. As pessoas têm de ter muito cuidado e rigor com tudo aquilo que divulgam. Podem estar veiculando informação que põe em risco a vida de terceiros”, conclui o professor Silva.

*Marcos Freire é jornalista, brasileiro e reside em Portugal

Clique aqui e leia no Vida de Empresa histórias sobre como as companhias estão enfrentando o coronavírus.

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