Protestos mostram a empresas que combate ao racismo tem que ir além de criar hashtags

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Em junho de 2019, uma reportagem do jornal The New York Times mostrou que, na sede americana da Adidas, em Portland, no estado do Oregon, menos de 4,5% dos 1,7 mil funcionários eram negros. Exatamente um ano depois, em junho de 2020, a marca alemã de produtos esportivos decidiu adotar uma política de cotas para novas contratações nos Estados Unidos: a empresa anunciou na última terça-feira (9/6) que 30% das vagas a serem preenchidas na América do Norte a partir de agora serão destinadas a candidatos negros ou hispânicos.

A decisão da Adidas é uma das mais recentes, e mais proeminentes, entre as anunciadas em meio à onde de protestos contra o racismo surgida nos EUA nas últimas semanas. No caso da marca alemã, a baixa proporção de trabalhadores negros é particularmente ilustrativa porque jovens negros são uma de suas principais bases de consumidores. Artistas e atletas negros – como a cantora Beyoncé, o jogador de basquete James Harden, do Houston Rockets, Candace Parker, jogadora do Los Angeles Sparks, também do basquete, e o rapper Kanye West – estão entre os principais garotos-propaganda da empresa, que tem associado fortemente sua imagem a astros negros desde os anos 80, quando o grupo de rap Run-DMC gravou a música My Adidas.

Desde a morte do ex-segurança George Floyd na cidade americana de Minneapolis, no dia 27 de maio, os protestos contra o racismo se alastraram pelos EUA e chegaram também a outros países. Os atos criticam a abordagem da polícia (Floyd, que era negro, morreu depois que um policial branco pressionou seu pescoço com o joelho por quase nove minutos), mas também passaram a ser direcionados a empresas vistas pelo movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) como pouco ativas no combate às desigualdades e ao que os manifestantes consideram racismo sistêmico.

“Os eventos das duas últimas semanas fizeram com que todos refletíssemos sobre o que podemos fazer para enfrentar as forças culturais e sistêmicas que sustentam o racismo”, disse o CEO da Adidas, Kasper Rorsted, no comunicado da última terça. “Tivemos que olhar para dentro de nós mesmos como indivíduos e da nossa organização e refletir sobre sistemas que prejudicam e silenciam a comunidade negra. Embora tenhamos falado sobre a importância da inclusão, precisamos fazer mais para criar um ambiente em que todos os nossos funcionários se sintam seguros, ouvidos e tenham a mesma oportunidade de progredir em suas carreiras.”

A empresa também havia anunciado o investimento de US$ 20 milhões nos próximos quatro anos em iniciativas de apoio a comunidades negras. Posteriormente, a companhia ampliou o desembolso para US$ 120 milhões. A Adidas também informou que financiaria 50 bolsas de estudos por ano para funcionários negros em universidades parceiras.

Impacto sobre os negócios

Os protestos das últimas semanas mudaram a percepção do público sobre racismo e discriminação, o que explica, em parte, por que companhias que muitas vezes se limitam a criar hashtags em redes sociais em momentos de comoção social passaram a anunciar medidas mais efetivas. Segundo a empresa de pesquisas Civiqs, hoje, mais da metade dos americanos já é a favor do movimento Black Lives Matter: desde a morte de George Floyd, a fatia passou de 46% para 53%.

Outra pesquisa, da Morning Consult, mostra que o público já exige que os líderes empresariais tomem partido nas discussões sobre racismo. Dos entrevistados, 81% disseram esperar que os CEOs manifestem apoio à igualdade racial e que suas empresas têm que assegurar processos igualitários de seleção de profissionais – e os executivos têm que detalhar como de fato será esse processo.

Segundo o levantamento, quase 70% das mais de 11 mil pessoas entrevistadas entre maio e junho afirmaram que a maneira como um CEO reage a questões como o Black Lives Matter poderia afetar permanentemente sua decisão de compra. Se não estava claro antes, agora está: companhias que não agirem efetivamente no combate ao racismo tendem a perder mercado.

“É preciso que as corporações não apenas emitam comunicados em que afirmam que elas valorizam vidas negras, mas que olhem de verdade para a maneira como estão estruturadas”, diz Magnus Ogunnaike, da organização de direitos civis Color of Change. Uma pista sobre essa estrutura aparece na lista das 500 maiores empresas americanas publicada pela revista Fortune: apenas quatro delas têm CEOs negros.

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