O papel das empresas na luta contra a pandemia na Colômbia

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Foto: Ejército Nacional de Colombia

A polarização tem marcado a vida dos colombianos nas últimas décadas. Nos primeiros meses da pandemia, no entanto, a Colômbia conseguiu superar essa divisão, o que teria ajudado o país a reduzir a velocidade da curva de contágio do novo coronavírus, afirma Andrés Ortiz, sócio sênior da consultoria de comunicação Dattis. Esse processo, explica ele, foi reforçado pela postura das empresas, que interromperam suas atividades e adotaram medidas de isolamento social a despeito dos impactos sobre suas operações.

Ortiz constata que, paulatinamente, a marca da polarização voltou a ficar mais evidente. Com larga experiência no setor privado, ele apresentou ao Vida de Empresa uma análise sobre o quadro de combate ao coronavírus no país, sobre a atuação das empresas – e também a visão dos colombianos sobre a postura do presidente brasileiro Jair Bolsonaro durante a pandemia.

VIDA DE EMPRESA: Em um seminário recente, o senhor disse que, na Colômbia, a polarização política sempre foi muito forte, mas que a pandemia teria sido um fator de união no país. A que o senhor atribui esse fenômeno?

Andrés Ortiz: As empresas na Colômbia sempre foram muito governistas, ou, dito de outra forma, o empresariado colombiano tradicionalmente trabalha em estreita colaboração com o governo. Isso não mudou. O que mudou no início da pandemia foi que o discurso político altamente polarizado entre a direita e a esquerda entrou em segundo plano para abrir espaço para uma construção conjunta de estratégias de mitigação e gestão do problema de saúde. Eu acho que isso aconteceu porque era óbvio que a opinião pública estava focada na pandemia e que qualquer tentativa de discurso politicamente polarizado jogaria contra quem se manifestasse dessa forma. Obviamente, com o passar do tempo, o quadro mudou e voltou ao normal. Os debates políticos recomeçaram, o que coloca os atores de cada tendência em suas posições.

VE: Quais foram os aspectos positivos da atuação das entidades públicas e privadas colombianas na luta contra a pandemia?

Ortiz: Há muitos exemplos. As empresas adotaram medidas de isolamento, apesar do impacto econômico. O governo, por sua vez, tomou decisões sobre a ajuda direta à população e à comunidade empresarial para lidar com a queda na atividade econômica (o que não significa que o impacto sobre a economia não seja grande). Além disso, havia e há consciência dos protocolos de biossegurança para garantir o suprimento de necessidades básicas da população, e muitas empresas fizeram doações de itens de proteção individual e de respiradores a hospitais públicos. O resultado é que a curva de contágio na Colômbia tem sido muito mais suave do que em outros países.

VE: Como essa união a que o senhor se refere pode ser estendida após a pandemia?

Ortiz: Como eu disse, empresas e governo mantêm um relacionamento próximo na Colômbia. Os governos recebem regularmente o apoio dos empregadores. No campo político, acho que não vai continuar – e, na verdade, já retomamos muitas discussões que havia antes da pandemia.

VE: Até que ponto a maneira como os líderes comunicam suas preocupações e decisões influencia a adoção de medidas preventivas entre a população?

Ortiz: No início, a consistência das mensagens e a resposta da população eram muito fortes, mas, à medida que as famílias e a população começaram sentir os efeitos negativos [do coronavírus] sobre a economia, houve uma desobediência massiva aos protocolos. A justificativa é a necessidade de as pessoas obterem recursos para se manter.

VE: A postura do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante a pandemia está presente no debate público na Colômbia?

Ortiz: Ela está presente como um exemplo de extremo político, com uma gestão muito diferente da ocorrida na Colômbia. O tratamento que o presidente Bolsonaro deu à pandemia é tido como irresponsável.

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