Aumentos salariais para enfrentar a pandemia: as ideias do CEO do Grupo Aço Cearense

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Nada na trajetória do Grupo Aço Cearense e de seu fundador, Vilmar Ferreira, é trivial. O empresário, criador de um conglomerado que faturou R$ 2,7 bilhões em 2018, nasceu em uma família pobre da zona rural do município de Marco, no interior do Ceará. Estudou até a sétima série porque tinha que ajudar a família na roça, e na juventude descobriu seu tino de vendedor. Esse talento chegou a ser empregado em uma distribuidora de bebidas, uma de suas primeiras atividades como empreendedor.

Na siderurgia, um setor muitas vezes associado a sobrenomes como Gerdau, Steinbruch (CSN) e Ermírio de Moraes (CBA), Ferreira construiu seu conglomerado com operações no Ceará e no Pará, longe dos grandes centros consumidores. Na cidade paraense de Marabá ele criou a Sinobras, empresa do grupo que é hoje a maior siderúrgica das regiões Norte e Nordeste do país.

Também incomum, ao menos entre empresários do setor produtivo que comandam corporações desse porte, é a defesa que o CEO faz de aumentos reais do salário mínimo. Nos últimos meses, enquanto muitas empresas demitiam, Ferreira publicou artigos na imprensa para argumentar que reajustes salariais acima da inflação ajudariam o país a se refazer da crise surgida com o novo coronavírus.

O empresário defende a ideia a despeito de o Grupo Aço Cearense estar em recuperação judicial. “Os custos se elevam, mas o retorno será muito maior”, afirma ele. (O pedido de recuperação judicial foi feito em 2017 para o reescalonamento de dívidas de R$ 1,8 bilhão. No ano seguinte, com renegociações, o débito caiu em R$ 1 bilhão, para cerca de R$ 800 milhões.)

Vilmar Ferreira falou ao Vida de Empresa sobre como aumentos salariais acima da inflação poderiam ter efeitos positivos não apenas sobre o Grupo Aço Cearense, mas sobre todo o setor produtivo. Leia a seguir:

VIDA DE EMPRESA: Em artigos recentes, o senhor defendeu, entre outras medidas, aumentos reais do salário mínimo, o que é raro de se ouvir de um grande empresário do setor produtivo. Como essa ideia tem sido recebida por outros empresários e executivos, especialmente do setor siderúrgico, e por que o senhor acha que essa seria uma medida positiva para as empresas?

Vilmar Ferreira: Eu já tinha provas vivas de que o sucesso e os recordes de arrecadação fiscal da época do governo Lula seriam por conta da política salarial. Lembremos que, em apenas oito anos de seu governo, o salário mínimo saiu de um patamar de US$ 57 (R$ 200) para US$ 302 (R$ 510). E isso fez com que a política salarial do governo Lula convergisse para o sucesso de todos os setores da economia, tanto público como privado.

VE: Aumentos reais do salário mínimo não afetariam as finanças das empresas em um momento de crise como o atual, em que muitas têm tido dificuldade para manter suas atividades?

Ferreira: É um grande equívoco pensar que um salário mínimo mais elevado não significaria sucesso para as empresas privadas e o governo. Os custos se elevam, mas o retorno será muito maior, conforme as minhas explicações nos artigos publicados recentemente. Ou seja, o retorno para o setor privado e governos municipais e estaduais seria no mínimo o dobro; e para o governo federal, no mínimo o triplo, devido ao incremento das arrecadações da previdência privada e tributos e contribuições como IPI, PIS/Cofins e Imposto de Renda.

VE: Qual seria o impacto do aumento real do salário mínimo sobre as atividades do Grupo Aço Cearense?

Ferreira: Na minha avaliação, com um aumento real de 10% no salário mínimo, teríamos um custo anual por volta de R$ 11 milhões, mas nosso retorno seria no mínimo de uns R$ 30 milhões. Além do incremento no volume de vendas, isso diminuiria a inadimplência, elevaria os preços pelo aumento da demanda, diminuindo os custos pela alta produtividade e logística. As vantagens de possíveis aumentos reais da renda das classes consumidoras deste país são incríveis. O exemplo mais recente foi o incremento dos R$ 600 de ajuda durante a pandemia, que o governo disponibilizou recentemente para a classe mais pobre. Já sentimos grandes resultados mesmo em um período difícil como esse. Até o mês de outubro, os R$ 600 irão fazer uma grande diferença para as empresas. Com o estancamento desta verba de R$ 600 para os pobres, a partir de novembro, a coisa irá começar a definhar.

VE: Como o grupo tem se saído na crise do coronavírus? Foi necessário reduzir quadros, adiar investimentos, por exemplo? E quais seriam, na sua visão, os pontos fortes do grupo na pandemia?

Ferreira: Meu espírito humano não me permitiu dispensar ninguém. Nós apenas aceleramos alguns ajustes que já estavam no nosso planejamento. Uma coisa importante no meio de tudo isso foi sentir a equipe reconhecer que, com a união de todos, a solidariedade, a humildade e acreditar nos 40 anos de trajetória do Grupo Aço Cearense, não poderia acontecer nada de mal com a empresa, mesmo em meio a algo tão sério como a Covid-19.

VE: A empresa conseguiu há alguns meses suspender, por 90 dias, os pagamentos no âmbito da recuperação judicial. O que mudou nesse quadro desde então?

Ferreira: Tudo o que fizemos com relação aos credores foi no âmbito judicial e, com relação aos colaboradores, foi de comum acordo. Tudo sem estresse. Já voltamos a fazer os pagamentos normalmente a todos os credores. Foi apenas uma suspensão por três meses.

Clique aqui e leia no Vida de Empresa histórias sobre como as companhias estão enfrentando o coronavírus.

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