Filantropia aumenta a desigualdade em vez de reduzi-la, diz novo livro

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A filantropia nunca foi tão intensa no mundo quanto nos dias de hoje, mas, em vez de ajudar a reduzir a distância de renda entre ricos e pobres, a prática tem na verdade intensificado as desigualdades. Esse é o argumento central de Philanthropy – from Aristotle to Zuckerberg, livro do britânico Paul Vallely que será lançado no exterior no próximo dia 17/9.

Não que o autor defenda a redução da filantropia ou algo do tipo. O que Vallely – que há décadas escreve sobre temas como ética, desigualdade e religião; é dele a biografia do Papa Francisco, lançada em 2013 – faz é mostrar dados que, no mínimo, questionam a ideia geral de que as doações são um modo de os mais abastados compartilharem suas fortunas com quem está no extremo oposto da pirâmide econômica.

“A ideia comum de que a filantropia resulta automaticamente em uma redistribuição de dinheiro está errada. Grande parte da filantropia da elite envolve causas da elite”, diz Vallely, segundo trecho do livro reproduzido pelo jornal The Guardian. “Em vez de tornar o mundo um lugar melhor, (essa prática) reforça amplamente o mundo como ele é. Muitas vezes, (a filantropia) favorece os ricos – e ninguém responsabiliza os filantropos por isso.”

Pobres ficam com pouco

Nos Estados Unidos, o país campeão em filantropia no mundo, apenas 20% do dinheiro distribuído por grandes doadores vai para os pobres, escreve o britânico. Grande parte dos recursos, registra ele, acaba sendo direcionado para as artes, equipes esportivas e outras atividades culturais.

Metade vai para educação e saúde. Isso até soa positivo, mas essa impressão não se sustenta com uma análise mais cuidadosa dos números, diz Vallely. Em 2019, segundo ele, as maiores doações para a área educacional foi para universidades de elite e escolas em que os filantropos endinheirados estudaram no passado.

O fenômeno se repete no Reino Unido, onde a filantropia também é forte. Lá, no período de dez anos até 2017, mais de dois terços de todas as doações de multimilionários – 4,79 bilhões de libras, ou o equivalente, hoje, a mais de R$ 33 bilhões – foram para o ensino superior. Metade disso acabou com apenas duas universidades, Oxford e Cambridge, em que estudantes de elite são ampla maioria. “Quando os ricos e a classe média fazem doações a escolas, eles escolhem aquelas frequentadas por seus próprios filhos, e não as dos pobres”, escreve o autor.

A filantropia também tem crescido no Brasil, e o tema atraiu ainda mais atenção no país com a multiplicação de iniciativas para enfrentar a pandemia. Ele certamente merece uma reflexão mais profunda dos líderes empresariais. O livro está em pré-venda na livraria digital do Guardian.

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