Aalbers, da Control Risks: Investidores mais cautelosos no Brasil por corrupção

Leia também

Em dois anos, empresas que não se modernizarem parecerão do século passado, diz Monica de Bolle

Monica de Bolle, professora da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, ambos em Washington, afirma, em entrevista exclusiva...

Geert Aalbers, sócio da Control Risks e que dirige a companhia no Brasil e Cone Sul, afirma que a piora no cenário do combate à corrupção no Brasil cria riscos extras ao investimentos. Este ano, a nota do Brasil no ranking que a empresa faz com a Americas Society/Council of the Americas caiu 10%, gerando riscos. Em entrevista exclusiva, ele fala dos desafios do Brasil na área. 

Muito se fala como a situação ambiental pode afetar os investimentos. Mas como o país está na questão da corrupção?

São dois temas distintos, mas ambos são críticos para investidores. ESG é uma preocupação real que demonstra um aumento da preocupação com o impacto de determinados empreendimentos. Observamos uma demanda crescente de incluir elementos de ESG em nossas diligências pré-transacionais, principalmente pelos grandes investidores institucionais, fundos de pensão, fundos de private equity e multinacionais e empresas de grande porte brasileiras. Uma falta de atenção a esses critérios irá cada vez mais impactar negativamente a possibilidade de se fazer negócio. 

Como o Brasil está evoluindo nesta questão?

A preocupação dos investidores com questões de corrupção vem de mais longa data. Recentemente, a Control Risks lançou junto com Americas Society/Council of the Americas a segunda versão do Índice de Capacidade para Combater a Corrupção (CCC Index). Este índice mede a capacidade de 15 países na América Latina para prevenir, detectar e punir a corrupção, avaliando três pilares: 1. Capacidade legal 2. Democracia e instituicoes politicas e 3. sociedade civil e a imprensa. Este ano vimos a nota do Brasil cair 10% principalmente devido a um retrocesso na capacidade legal, que mede entre outros fatores, a independência e recursos disponíveis para o ministério público e investigadores, a independência e eficiência do judiciário, e a existência e uso eficaz de instrumentos de colaboração, como leniência e delação premiada.

A piora na percepção da luta contra a corrupção afeta os investimentos?

A piora na percepção de corrupção pode impactar sobretudo em mercados onde há um maior envolvimento de autoridades públicas na economia, e países aonde as instituições são mais frágeis e o estado de direito (“rule of law”) menos presente. Mas investidores também buscam oportunidades de investimentos de ativos depreciados (no caso do Brasil, devido ao câmbio, por exemplo) que apresentem um perfil de risco – retorno atrativo de longo prazo. O que vemos é que estes investidores de forma geral se tornarnam mais cautelosos. Estão indo além das análises tradicionais financeiras e legais nas diligências pré-aquisição e cada vez mais solicitando que sejam incluídas analises específicas sobre riscos regulatórios, políticos e de corrupção nestas diligências, sabendo que são estes riscos que têm grande potencial para impactar de forma negativa o futuro dos investimentos, e a reputação dos próprios investidores.

 A maior parte da América Latina parece viver retrocesso na luta contra a corrupção. Isso pode piorar o ambiente de negócios como um todo?

O Índice CCC deste ano revela que o movimento anticorrupção na América Latina que havia ganhado tanta força nos últimos anos, está estagnando e em alguns países, retrocedendo. Até pouco tempo atrás, a percepção entre investidores era a de que o Brasil havia se tornado uma das poucas grandes economias emergentes capazes de progredir na construção do estado de direito e na luta contra a corrupção, algo que tornava o Brasil mais atrativo. É importante deixar claro que o Brasil ainda tem uma colocação favorável, em quarto lugar no nosso Índice, atrás de Uruguai, Chile e Costa Rica. Mas a queda de 10% é um sinal preocupante e, caso isso se torne uma trajetória para os próximos anos, pode erodir a confiança para investir no Brasil. É fundamental que os investidores estrangeiros – e nacionais – entendam este risco e continuem investindo nos seus programas de Compliance para se adequarem a este novo cenário.

Já há clientes de vocês demonstrando preocupação quanto a isso?

 Em termos gerais, os nossos clientes estão bastante ativos, principalmente investindo no setor de infraestrutura. Mas estão investindo com mais cautela.

Falas como a do presidente Jair Bolsonaro, de que “a corrupção acabou” impactam?

 O importante é que o Brasil possui instituições sólidas comparado com a maior parte dos países na região, inclusive para investigar e punir a corrupção. Apesar dos retrocessos que sinalizamos, as investigações continuam. Com relação à corrupção em si, é importante destacar que a pandemia trouxe um grande leque de novos riscos. Contratações emergenciais pelos governos são um fenômeno de alto risco em termos de corrupção global, não apenas no Brasil;  a OCDE e a Transparência Internacional já haviam alertado para este risco elevado. O mesmo existe em função do volume alto de recursos envolvidos e o relaxamento de trâmites e procedimentos padrão, que frequentemente diminuem a competitividade e transparência destas compras. Suspeitos de corrupção e desvios nas compras emergenciais já estão sendo investigados na Argentina, Paraguai, Panamá e na Bolívia, onde o Ministro de Saúde foi preso por irregularidades relacionadas à compra de respiradores. É quase certo que surjam novos casos na região nos próximos meses. Existe uma probabilidade maior que estes desvios sejam apurados e punidos principalmente nos países com uma capacidade maior para detectar e combater a corrupção, como o Brasil.   

 O que precisa ser feito para reverter esta piora de imagem?

Existem vários pontos de melhoria, mas a fragmentação partidária certamente é uma das vulnerabilidades principais do Brasil. Ela coloca o Brasil num dilema clássico – lotear o governo com critério programático duvidoso, aumentando o risco de corrupção, ou recusar a negociação com o Legislativo inviabilizando porém a governabilidade. A solução é uma reforma do sistema partidário – uma área em que o Brasil tem pontuação relativamente baixa similar a países como Peru e México, e abaixo da Argentina. Por outro lado o setor privado tem a obrigação de fazer a sua parte, de exigir maior transparência e ação proativa no combate a corrupção pelos seus pares, e um comprometimento com a ética, e a implementação de uma cultura e um programa de compliance eficaz. A corrupção se materializa entre duas ou mais partes. Ninguém dança sozinho.

- Publicidade -

Outras notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -

Mais recentes

Em dois anos, empresas que não se modernizarem parecerão do século passado, diz Monica de Bolle

Monica de Bolle, professora da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, ambos em Washington, afirma, em entrevista exclusiva...

Insead aponta ferramentas para transformar suas ideias em realidade

Um artigo publicado na prestigiosa escola de administração europeia Insead apontou quais ferramentas são necessárias para transformar uma inovação em uma inovação bem-sucedida. O...

As entregas do e-commerce precisam ser tão rápidas?, questiona Correos da Espanha

Em tempos de Black Friday, quase tão importante quanto os descontos são os prazos para entregas. Se antes a disputa era por dias, agora...

Grupo brasileiro lança movimento CEOs pela Diversidade e Inclusão

Um grupo de CEOs de grandes empresas brasileiras lançará, no dia 26 de novembro, o Movimento Impacto - CEOs pela Diversidade e Inclusão. O...

Vacinas contra Covid-19 levam FMI a sugerir investimentos para a retomada econômica global

O otimismo gerado com notícias promissoras quase diárias sobre vacinas contra a Covid-19 levou o Fundo Monetário Internacional (FMI), em um texto desta terça-feira...