Exclusivo: Para Canuto, pandemia terá consequências duradoras e empresas precisam de adaptação

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Um dos economistas de maior reconhecimento do país, Otaviano Canuto acredita que algumas das mudanças trazidas pela pandemia do novo coronavírus vieram para ficar. “A atuação do setor público enquanto segurador em última instância contra catástrofes deve estimular o apetite por políticas públicas mais proativas em relação ao comércio exterior, saúde pública e outras”, afirma em entrevista exclusiva ao Vida de Empresa. Para ele, questões ambientais e sociais ganham importância. Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute e diretor do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor-executivo no Banco Mundial, diretor-executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no ministério da fazenda e professor da USP e da Unicamp. Para ele, as empresas precisam se reinventar: “É preciso capacidade de adaptar seus processos e modelos de negócio”, disse. Abaixo, a íntegra da entrevista:

Quais as mudanças causadas pela pandemia na economia mundial?

A pandemia terá algumas consequências duradouras, algumas das quais na verdade resultando da aceleração de tendências que já estavam em curso. Por exemplo, a atuação do setor público enquanto segurador em última instância contra catástrofes deve estimular o apetite por políticas públicas mais proativas em relação ao comércio exterior, saúde pública e outras. A concentração de renda já está aumentando em todos os lugares, por conta do fato de que os impactos econômicos da pandemia estão sendo mais duros na parte de baixo da pirâmide de renda: pessoas empregadas em serviços intensivos em contato pessoal, informalidade e dependência de locomoção. A digitalização, cuja base tecnológica já existia, está reconfigurando o emprego e muitos postos de trabalho de antes não vão voltar. Não deverá ocorrer um reverso da globalização comercial, mas um recuo parcial, com políticas nacionais tentando integrar domesticamente alguns segmentos considerados “estratégicos”, qualquer que seja a extensão dessa demarcação. Dívidas públicas estão subindo e deverá ocorrer uma busca de aumento na arrecadação tributária.  

Temas como sustentabilidade e responsabilidade social ganham maior protagonismo?

Sim. Há sinais de que a tragédia natural da epidemia está acentuando a percepção de que outras vindo da natureza são reais e dolorosas. Não deixa de ser notável a expansão recente dos chamados “fundos verdes” e “fundos ESG” que priorizam ativos com boa qualificação em termos de resultados ambientais, sociais e com boa governança. As gerações mais jovens são mais sensíveis a esses temas, o que tende a reforçar o protagonismo. No caso da responsabilidade social, o impacto negativo da pandemia na parte inferior da pirâmide também deve intensificar o apelo por políticas governamentais de apoio, inclusive de suporte a sistemas de proteção social.

Quais as características que as empresas precisam ter para sobreviver nesse novo cenário?

Capacidade de adaptar seus processos e modelos de negócio. Dependendo da duração da pandemia, vão sobreviver as que se adaptarem. No caso de serviços com aglomeração de pessoas, restará ver se podem ser viáveis com menor uso de sua capacidade física, já que isolamento social no mínimo voluntário não vai desaparecer subitamente.

A pandemia acelera as mudanças nas relações de trabalho? Isso afeta mais as economias em desenvolvimento ou as desenvolvidas?

Todas estão sendo afetadas, com a digitalização de processos produtivos, inclusive manufatureiros, reforçando a demanda por trabalhadores capacitados a lidar com tecnologia. Alguns segmentos industriais que foram deslocados para países em desenvolvimento, por conta de baixos custos da mão de obra de baixa qualificação, serão em parte deslocados para áreas onde a disponibilidade de mão de obra qualificada e a proximidade física de mercados sejam maiores.

Diante de uma crise sem precedentes, quais são as alternativas para a recuperação econômica do Brasil?

Levantar investimentos em infraestrutura, tanto na básica – como transportes, energia, água e saneamento – quanto nas telecomunicações. Esses investimentos terão efeitos positivos tanto pelo lado da demanda quanto da capacidade de oferta. Dado que as restrições fiscais continuarão altas, será importante aumentar o espaço e a atratividade para investimentos privados em todas essas áreas. O Brasil também precisa melhorar seu ambiente de negócios, porque o futuro envolve mais transações entre empresas. Reforma tributária e abertura comercial serão prioritárias. Com um horizonte mais longo, mais e melhor educação serão fundamentais. Deve-se fazer isso via reorientação do gasto público, de modo a evitar deterioração fiscal e um retorno a taxas de juros altas como no passado.

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