Em dois anos, empresas que não se modernizarem parecerão do século passado, diz Monica de Bolle

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Monica de Bolle, professora da Johns Hopkins University e pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, ambos em Washington, afirma, em entrevista exclusiva ao Vida de Empresa, que assim que se clarear a solução da pandemia, que está mais perto agora com o avanço das vacinas, o tema ambiental será central na economia, para empresas e governo. Ela indica que, embora lento, haverá um repensar do capitalismo com base em quatro eixos: ambiental, educação, saúde e proteção social. Bacharel em economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e é PhD em economia pela London School of Economics and Political Science e autora de diversos livros, ela alerta que a grande parte das empresas brasileiras que não estão inseridas na economia mundial precisam se modernizar. “Senão vai parecer do século retrasado daqui há um ou dois anos”. Confira, abaixo, a entrevista com a economista.

Quais transformações as empresas podem passar com a eleição de Biden e sua nova agenda mais inclusiva e ambiental?

A eleição de Joe Biden vai levar a um esforço adicional, de algo já estava ocorrendo, que é o fato das empresas buscarem uma espécie de “selo de qualidade”, digamos assim, ou de respaldo, em questões ambientais e sociais. E claramente para as empresas que atuam com energia, e em especial de óleo e gás, vão cada vez mais buscar, elas já vem fazendo, isso só acelera o processo, formas de produzir sustentáveis e entrar também na área de energias renováveis como modo de diversificação e de resposta a estes desafios ambientais. Não são propriamente transformações, na verdade, as empresas já estão fazendo isso, mas há uma aceleração neste processo e isso ocorre no mundo todo. 

A economia mundial em 2021 tende a focar mais em temas ambientais e sociais?

Sim, inevitavelmente o tema ambiental vira o tema central da economia e das empresas. Ele só não assumirá o protagonismo enquanto a gente não tiver uma visão mais clara sobre o controle da pandemia e isso ainda vai demorar. A maior parte de 2021 na verdade ainda será marcada sobre a distribuição das vacinas, sobre a avaliação das vacinas, que não vão parar com a conclusão da fase 3 dos testes e da aprovação dos imunizantes, elas vão continuar sobre monitoramento e avaliação, juntamente com toda a questão de distribuição e tempo de proteção de fato das vacinas. Assim, temas sociais atrelados à pandemia fazem parte deste quadro de preocupações, debates internos nos países e no debate internacional. Os temas ambientais estarão presentes, mas só vem para o centro do debate depois que essa nuvem toda da pandemia começar a se dissipar um pouco, pois ela não vai desaparecer por completo.

No começo da pandemia muitos acreditaram que isso reforçaria um “repensar do capitalismo”, utilizando um tema que foi muito debatido em Davos. Como você vê isso?

Inevitavelmente haverá algum “repensamento” do capitalismo, sob bases diferentes. Os eixos serão outros, serão saúde, proteção social, meio ambiente e educação. Haverá a necessidade de muitas políticas na área de educação no mundo inteiro por causa das escolas fechadas e das crianças que ficaram fora das escolas. Proteção social será outro ponto. Estes viram os eixos centrais de articulação de política econômica e é sobre estes pilares que se deve discutir esta nova modelagem, digamos assim, do capitalismo. Acredito que esta transformação, evidentemente, será lenta, não é algo rápido, mas é para este caminho que a gente vai. Fazendo isso, vendo como o mundo se reorganiza, haverá um debate sobre o papel do capitalismo financeirizado que culminou com a crise de 2008, tenho a impressão que ele diminuirá. Haverá muito debate sobre estes quatro eixos: proteção social, saúde, meio ambiente e educação. As políticas públicas estarão cada vez mais voltadas a isso e a maneira com que se articulam as políticas econômicas, ao invés da forma mais tradicional, com foco em política fiscal e monetária, vai ser bem diferente, muito menos estreito.

Quais lições a pandemia gera para as empresas, de maneira geral?

Há muitas lições da pandemia. Uma delas é sobre a maneira de se trabalhar. Sabemos que isso depende muito da empresa e do ramo, as relações de trabalho e as presunções que se tinha a respeito de como fazer o equilíbrio entre trabalhar o escritório, vida em família, como se divide o tempo, como dá aos seus trabalhadores a possibilidade  de atuar mais de casa e ir menos vezes ao escritório. Isso era algo que estava sendo bastante debatido mas que não estava exatamente posto em prática ainda, pois  havia muita resistência, mais nos Estados Unidos e no Brasil que na Europa, sobre o impacto de trabalhar em casa na produtividade. Ficou provado que isso não é verdade. Haverá uma reorganização e reordenação dos espaços e do que é necessário ter neles. É realmente tão necessário ter tanta gente nos escritórios? Ou é possível uma espécie de rodízio? Em que tipo de negócio isso pode ocorrer? Esse é um questionamento que veio, a gente não vai  voltar ao que tinha antes em termos de organização de trabalho nas empresas não. A outra coisa que vai ficar em evidência é que as empresas precisam de situações absolutamente extraordinárias, como situações epidêmicas, em que você tem que fechar as portas, mandar trabalhador para casa, será preciso saber como é que se sobrevive a isso. Esse plano de contingência, que não era normal se fazer, agora virou necessidade. Ainda mais porque, como vimos, as respostas dos governos podem ser muito erráticas, nem sempre vão atender as empresas, principalmente as menores, da forma como elas precisam ser atendidas.

Você vê as empresas brasileiras alinhadas a este movimento global? Um posicionamento isolado do governo nestas questões pode afetar estas empresas?

No caso brasileiro, as empresas que têm inserção internacional, que não são muitas na verdade, naturalmente vão estar vivendo e passando pelos mesmos questionamentos e transformações que estarão ocorrendo no resto do mundo. Mas temos uma parte do país que é isolada, uma parte considerável do país. Para eles, o Brasil já estava muito atrás do resto do mundo, pelo fato do Brasil ser um país isolado. Então para esta parcela do setor empresarial brasileiro, que não está inserida globalmente, o debate, a maneira de fazer as coisas, vai parecer do século retrasado daqui há um ou dois anos a maneira que o país ficou.

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