No cenário pós-pandemia empresas terão que ser resilientes

Leia também

Levantamento do Linkedin mostra que trabalhadores terminaram 2020 menos otimistas

Trabalhadores brasileiros fecharam 2020 menos confiantes. Isso foi o que mostrou a quinta edição do Índice de Confiança do Trabalhador, realizado pelo LinkedIn, a...

Pandemia, crise climáticas e movimentos sociais levam a marketing a seu maior desafio

Muito se fala sobre transformações no jornalismo, nas mídias e no entretenimento. Pois agora é o momento de se repensar o marketing. Um artigo...

Cresce interesse de investidores sobre ESG no mercado brasileiro

O ESG provou que não é apenas uma moda. As empresas e investidores se preocupam tanto com questões ambientais, sociais e de governança como...

O esperado ano de 2021 chegou e com ele se vislumbra um cenário de recuperação a partir da vacinação de Covid-19. Mas o professor de Gestão Pública da Fundação Dom Cabral Paulo Vicente, explica aos leitores do site Vida de Empresa, que as projeções mais positivas na área econômica só devem se confirmar para o Brasil se as reformas necessárias avançarem e também de como ficará a relação China e Estados Unidos. Paulo Vicente fala também sobre as transformações provocadas pela pandemia e destaca que para alguns setores elas são definitivas, além de explicar que na sua avaliação muitos negócios terão que se reinventar para se manterem abertos. O professor afirma que as empresas no futuro devem ser resilientes deixando para trás o conceito de performance, que foi tão presente nas últimas décadas.

O que esperar de 2021 na economia? 

A vacinação vai ocorrer, mas os resultados vão demorar um pouco para aparecer e isso vai dificultar o drama da vacinação. Então, o primeiro semestre ainda vai ser com pandemia, com a doença  sendo controlada. No segundo semestre deveremos ter algo mais próximo do famoso novo normal. O cenário nacional será marcado por temas como as reformas e a situação fiscal do governo brasileiro. Sem reformas, será complicado seguir empurrando a situação fiscal com a barriga e isso pode retardar a recuperação do país. Agora no cenário internacional há muitas dúvidas. Faço uma análise mais positiva com o governo de Joe Biden, mas a questão será como pode evoluir sua relação com a China, depois de Donald Trump ter iniciado a guerra comercial com o gigante asiático. Biden pode tanto ser duro ou mais light, em um tom mais ameno, com a China. O melhor cenário para o Brasil, na verdade, seria a manutenção de uma certa briga entre China e Estados Unidos, pois  isso torna o Brasil um vendedor confiável para a China de forma mais fácil com a manutenção da pressão dos preços das commodities. Nessa situação, em que a relação entre americanos e chineses segue estranha, o Brasil pode ficar bem com os dois, ampliando a venda aos dois países sem um estresse maior. Isso, claro, desde que não nos leve a uma guerra real ou uma piora da retórica entre os dois países. Já no cenário em que a guerra comercial entre China e Estados Unidos fica mais amena, os Estados Unidos retomariam suas vendas para a China e isso pode jogar os preços de commodities para baixo. Então, na prática, você pode ter uma situação relativamente complicada para o Brasil que tem a commodities como seu carro chefe na economia. Por outro lado, se fizermos as reformas teríamos a possibilidade melhor da economia destravar. Voltando ao cenário nacional, nós podemos ter reformas que melhorem a situação fiscal brasileira ou não.  No pior cenário para o Brasil, seria onde os americanos e chineses fazem as pazes e o país não faz as suas reformas. Esse cenário pode ser muito ruim.

E a relação entre EUA e Brasil, pode afetar os negócios?

É preciso tomar cuidado, pois o Biden já disse que iria pressionar os países que têm floresta tropical, e citou o Brasil nominalmente, nesta questão ambiental. Ele disse que iria dar dinheiro, mas acho que isso foi muito mais discurso do que realidade, embora a gente não saiba ao certo seu  plano. Se isso ocorrer, nós temos tudo para fazer desse limão uma limonada e trazer esse dinheiro pra cá. Mas eu duvido um pouco disso, pois assim os Estados Unidos estariam dando dinheiro para o Brasil virar concorrente do próprio americano (do agricultor americano) e também do europeu. Ah, eu vou dar dinheiro e você vai melhorar a sua qualidade de produção e com isso você vai concorrer comigo. Não vejo muito sentido nessa lógica.

Como a pandemia pode ditar o ritmo econômico? 

A tendência é que com a chegada da vacinação, já iniciada em muitos países, a pandemia seja controlada. No Brasil, apesar de todas as suas dificuldades, em breve teremos a vacina, que deve estar bem distribuída antes do inverno. Diante disso, a lógica aponta para uma diminuição do impacto da pandemia. Agora, assim como a pandemia foi um evento aleatório e imprevisível, alguns dizem que é um cisne negro, ou seja, você pode ter uma mutação desse vírus e tudo sai do controle de novo. Isso é provável? Não, não é provável, na verdade é pouquíssimo provável. Mas gato escaldado tem medo de água fria  e então nós não podemos simplesmente descartar a possibilidade disso acontecer.

Quais sequelas da crise, como aumento da pobreza e ampliação das desigualdades entre países, pode afetar a recuperação da economia brasileira? 

Os impactos podem ser divididos em três. Os primeiros são desemprego e desigualdade, o segundo são os setores da economia que serão afetados e o terceiro uma nova estrutura geográfica e demográfica. O desemprego e desigualdade ocorreram fundamentalmente porque a pandemia afetou o setor de serviços e o setor informal, muita gente que dependia desse setor que é o que mais emprega no Brasil e isso gerou desemprego em massa e consequentemente desigualdade. Além daqueles que não tinham CLT, o trabalhador autônomo que vivia na economia informal e nesse caso houve muito impacto. Isso tem relação com os setores, como o de serviços que muito provavelmente nunca vão se recuperar da forma como eram antes. Casos como os de cruzeiros marítimos, aviação e hotelaria que vão mudar fortemente. Alguns setores que eram intensivos em contato e dependiam muito dessa questão da higiene vão ser muito afetados. E por último, é o fato de que as pessoas estão começando a mudar para cidades menores por conta do home office que já era uma tendência para daqui dez anos e que ocorreu em um ano, então houve uma dispersão das pessoas e deve haver uma mudança demográfica e geográfica de distribuição da população no território. Isso reverte? O desemprego pode reverter sim na medida que você tem a vacinação, então você começa a ativar de novo o setor de serviços e a economia informal. No começo você não vai ter emprego formal, mas vai ter uma atividade qualquer econômica para as pessoas. Outros setores acreditam que nunca vão se recuperar porque vão, já os setores de viagens e eventos acreditam que vão ter uma demanda reprimida no segundo semestre. E a geografia acho que vai mudar definitivamente, acho que se percebeu que o home office funciona bem e acho então que haverá uma mudança para um mundo intermediário que nem será o mundo home office e nem será o mundo anterior, mas será o mundo SOHO — home office e escritórios pequenos –, quando terá escritórios menores e uma mistura com home office. Nesse contexto, falamos de um mundo mais disperso geograficamente, então isso deve causar impacto nas cidades grandes como São Paulo, Belo Horizonte e acredito que talvez o maior impacto seja em Brasília. São cidades que não têm mais necessidade de ter tanta gente e tanta gente concentrada. Os centros dessas cidades vão sofrer muito, vão virar regiões meio mortas. Os restaurantes do centro das cidades, estabelecimentos que viviam de servir cinco refeições por semana, vão entrar pelo cano. Eles vão ter que se reinventar, mas muito provavelmente vão ter que fechar.

Como o senhor prevê o futuro do mercado imobiliário?

Eu acho que esse mundo dos grandes escritórios e torres corporativas nos centros das cidades morreu. Ele não vai se reinventar. Temos evidências muito fortes disso, como o Banco do Brasil devolvendo 17 dos 35 prédios que alugava em Brasília e a Petrobras devolvendo quase todos os prédios que alugava no centro do Rio de Janeiro. Além de muitas outras empresas alegando que foram obrigadas a seguir para o home office e que não devem voltar ao que era antes, temos a XP montando um centro em São Roque, uma cidade secundária em São Paulo. Então avalio que esse mundo das torres corporativas vai morrer e surge o mundo SOHO e isso vai alterar a forma como a mão de obra é empregada e como as pessoas vivem e moram. Essa revolução tecnológica e cultural não tem jeito, há uma mudança na forma como as pessoas vivem e trabalham, crescem e cuidam de suas famílias. Tudo vai mudar. Isso indica que os fundos imobiliários estão com um problema sério, porque eles têm grandes ativos em torres de escritório eles — torres — vão micar e terão valor muito inferior. Algumas regiões que já eram degradadas em centros de cidades tendem a ficar piores ainda. Então teremos pela frente um desafio social e urbano que é reorganizar e reinventar os centros de cidades e isso deve levar, no mínimo, uns dez anos. 

Como deve ficar o câmbio em 2021?

Os economistas costumam dizer: “câmbios de moedas existem para ensinar humildade”. É muito difícil prever câmbio. Nos diferentes cenários descritos acima você tem câmbios diferentes. A situação que mais afeta o Brasil é ter as reformas ou não, pois no momento em que as reformas são feitas a situação fiscal brasileira melhora e com isso o câmbio cai. E se, ao contrário, nós não fizermos as reformas, a tendência é de elevação do câmbio. Hoje a pressão é por queda, com a bolsa em recuperação em todo o mundo, com as pessoas saindo dos ativos de proteção — ouro, dólar, bitcoin — para botar dinheiro em ações de novo. Então eu vejo uma pressão geral de baixa no dólar e acredito que vá fechar 2021 abaixo de R$ 5. Porque de uma forma absolutamente inacreditável saiu de R$ 4 no começo de 2020 e chegou aos R$ 6 ao longo do último ano e agora está em R$ 5. É uma flutuação muito grande e a minha expectativa é que vá abaixo de R$ 5 nos próximos meses. Agora ao longo do ano tudo depende muito dessa guerra comercial entre Estados Unidos e China e também dos Brasil fazer suas próprias reformas. O meu prognóstico é de oscilação ao longo do ano, mas creio que ficará entre R$ 4,50 e R$ 5.

Como as empresas podem se preparar para 2021?

Eu tenho falado muito da empresa resiliente. Durante 30 anos o nosso motor foi a palavra performance, definitivamente sempre mais performance e mais performance. Comprar performance é comprar risco e agora a gente percebeu que um dos riscos que a gente vinha comprando se consolidou. Mas agora a outra palavra chave vai ser resiliência, resistência e robustez. Isso tanto na vida do indivíduo quanto na vida da organização. Então, para se criar essa organização resiliente e criar uma figura de linguagem, eu tenho falado do caminho do camelo e do unicórnio. As startups unicórnios quando abrem para o mercado de ações e já chegam rapidamente a R$ 1 bilhão, essas companhias agora estão na beira de uma “deserto” e então estamos com unicórnios na mão procurando um camelo porque a gente sabe que o unicórnio não vai conseguir atravessar o deserto. Os próximos cinco anos vão ser anos turbulentos e difíceis. Então o que eu tenho dito é que você precisa criar uma operação resiliente, ou seja, uma operação camelo. Camelos basicamente fazem co-gestão de risco, eles têm caixa para segurar as variações de todos os tipos e ele tem internamente os seis pontos que julgo fundamentais: melhor internacionalização, inovação, gestão da cadeia de suprimento, sustentabilidade, gestão de pessoas e marca. Esses são os seis pontos que acho que são críticos para o empresário olhar e pensar como é que ele vai criar essa organização camelo.

- Publicidade -

Outras notícias

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Publicidade -

Mais recentes

Cresce interesse de investidores sobre ESG no mercado brasileiro

O ESG provou que não é apenas uma moda. As empresas e investidores se preocupam tanto com questões ambientais, sociais e de governança como...

Fintechs brasileiras batem recorde e captam mais de US$ 1,9 bilhão em 2020

Um levantamento da Distrito Dataminer, braço de inteligência de mercado da empresa de inovação aberta Distrito, afirma que o ano de 2020 foi de...

Levantamento do Linkedin mostra que trabalhadores terminaram 2020 menos otimistas

Trabalhadores brasileiros fecharam 2020 menos confiantes. Isso foi o que mostrou a quinta edição do Índice de Confiança do Trabalhador, realizado pelo LinkedIn, a...

Pandemia, crise climáticas e movimentos sociais levam a marketing a seu maior desafio

Muito se fala sobre transformações no jornalismo, nas mídias e no entretenimento. Pois agora é o momento de se repensar o marketing. Um artigo...

Vacinas, racismo e clima: motores do ESG em 2021

A Boston Common Asset Management definiu quais serão os três motores para os investimentos em ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança)...