Cresce interesse de investidores sobre ESG no mercado brasileiro

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O ESG provou que não é apenas uma moda. As empresas e investidores se preocupam tanto com questões ambientais, sociais e de governança como com o lucro. Essa mudança no modo de gestão das empresas traz um impacto direto também na forma como se deve comunicar aos investidores e acionistas as ações que tornam uma empresa forte em seus atributos de ESG. O Vida de Empresa ouviu Maurício Colombari, sócio da PwC Brasil — empresas de consultoria e auditoria–, que destaca ESG como uma jornada e acredita que a pandemia acabou colocando os aspectos sociais no “centro das atenções”.  Colombari afirma que no Brasil ainda há muitas discrepâncias nos modelos de comunicação das ações das empresas nesse aspecto.

– Diversos estudos têm demonstrado que os investidores avaliam cada vez mais as questões de ESG das empresas antes de investir. Na sua avaliação, essa é uma tendência também no mercado brasileiro?

Sim, essa tendência está muito presente no mercado brasileiro também. Notamos um crescente interesse dos investidores no que tange o ESG no mercado brasileiro, mesmo porque o nosso mercado de capitais tem uma participação importante de investidores institucionais estrangeiros. Nesse sentido, essa tendência deve crescer no futuro e assuntos sociais e ambientais não somente da empresa, mas também do Brasil como um todo, poderão impactar a capacidade das empresas nacionais a terem acesso ao mercado de capitais, ou mesmo para captação de recursos por meio de emissão de dívida. 

– Em meio a uma crise mundial sem precedentes, onde assistimos diversas empresas deixando o Brasil. Como imprimir a importância de ESG – principalmente do ponto de vista social – na cultura das empresas nacionais?

Eu costumo dizer que ESG é uma jornada, e essa crise mencionada colocou de fato os aspectos sociais no centro das atenções. Eu acredito que esse movimento é muito positivo, uma oportunidade para as empresas nacionais incorporarem essas questões no propósito, na estratégia e na cultura organizacional. Esse processo se dá pelo engajamento de todas as partes interessadas, mas acionistas, administradores e conselheiros têm um papel muito importante a desempenhar, para que as empresas possam dar a resposta que a sociedade de forma geral espera. 

– No estudo, a PwC Brasil relata a desconexão de informações de ESG. Como construir uma linguagem que atenda as diversas áreas nesse processo?

De fato, temos notado que, em muitos casos, falta uma integração entre as informações que são divulgadas pelas empresas nas diversas fontes de informações públicas, e até mesmo quando são divulgadas em uma única fonte. A construção de uma mensagem integrada e coerente depende da forma como os aspectos de ESG estão de fato incorporados no propósito da empresa, e disseminados nas diversas áreas correlatas. Muitas vezes essa desconexão é resultado da falta de um pensamento integrado relacionado aos aspectos de ESG, sendo que essa integração é fundamental para a construção de uma história consistente. 

– Quais são os estágios de comunicação de ESG em relatórios pelas empresas?

No Brasil temos notado que existe uma enorme discrepância entre as empresas, mesmo considerando somente as empresas de capital aberto ou de grande porte. Temos empresas no Brasil que têm apresentado nível de excelência na forma como atuam e reportam os aspectos de ESG, e que são comparáveis com as melhores empresas do mundo. Temos um outro grupo de empresas que ainda não estão nesse nível, mas que passaram a incorporar os aspectos de ESG nas diversas áreas, e comunicar os avanços em seus relatórios. Temos ainda empresas que ainda não se posicionaram em relação a essa temática, e portanto ainda não implementaram uma comunicação desses temas às partes interessadas. Como eu disse anteriormente, ESG é uma jornada, e portanto nunca é tarde para começar.  

– Como mostrar aos acionistas os reflexos de ESG na empresa? Isso pode ter impacto nas decisões?

Esse é o caminho. Quando os aspectos de ESG passarem a ter impacto nas decisões, é sinal de que a empresa está passando a incorporar esses aspectos na estratégia dos negócios. É importante que a administração mostre que boas práticas de ESG estão se tornando um imperativo de negócios, e que práticas inadequadas podem trazer riscos indesejados. Ao mesmo tempo, ESG é uma oportunidade, seja, por exemplo, por atração de uma força de trabalho mais qualificada, seja pelo acesso a novos mercados. 

– Para uma empresa que ainda não segue os conceitos de ESG, quais são os passos fundamentais para o início da adoção dessa cultura?

O primeiro passo é uma discussão ampla com as partes interessadas para que o entendimento de como esses aspectos podem se conectar com o propósito da empresa, e a sua estratégia. O passo seguinte é um diagnóstico das diversas questões contempladas pelos pilares de ESG, para verificar quais são as boas práticas atuais, quais são os principais GAPs, e o desenvolvimento de um plano de ação de implementação das atividades. A partir desse diagnóstico, a empresa poderá pensar em um projeto estruturado para a adoção de boas práticas em cada um dos pilares. É interessante que, muitas vezes, as empresas se surpreendem com boas práticas que determinadas áreas já atuam, mas ao mesmo tempo podem identificar riscos que ainda não haviam sido identificados. 

– Como pequenas e médias empresas podem adotar ESG em suas culturas?

Esse de fato é um desafio importante. Temos visto que essa agenda tem sido liderada pelas grandes empresas listadas, assim como por multinacionais. Muitas vezes as pequenas e médias empresas têm outras prioridades, e não podem se dar ao luxo de implementar melhores práticas em todas essas frentes. Não obstante, é possível desenvolver um projeto compatível com o porte e possibilidade de qualquer empresa, e ampliar o escopo das atividades de forma consistente e sustentável. ESG é algo aplicável para todas as empresas, independentemente do porte ou da complexidade das operações. 

 

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